Felizmente há luar (5)

CAPICUA, MEDO DO MEDO

Ouve o que eu te digo,
Vou-te contar um segredo,
É muito lucrativo que o mundo tenha medo,
Medo da gripe,
São mais uns medicamentos,
Vem outra estirpe reforçar os dividendos,
Medo da crise e do crime como já vimos no filme,
Medo de ti e de mim,
Medo dos tempos,
Medo que seja tarde,
medo que seja cedo e medo de assustar-me se me apontares o dedo,
Medo de cães e de insectos,
Medo da multidão,
Medo do chão e do tecto,
Medo da solidão,
Medo de andar de carro,
Medo do avião,
Medo de ficar gordo, velho e sem um tostão,
Medo do olho da rua e do olhar do patrão e medo de morrer mais cedo do que a prestação,
Medo de não ser homem e de não ser jovem,
Medo dos que morrem e medo do não!

Medo de deus e medo da polícia,
Medo de não ir para o céu e medo da justiça,
Medo do escuro, do novo e do desconhecido,
Medo do caos e do povo e de ficar perdido,
Sozinho,
Sem guito e bem longe do ninho,
Medo do vinho,
Do grito e medo do vizinho,
Medo do fumo,
Do fogo,
Da água do mar,
Medo do fundo do poço,
Do louco e do ar,
Medo do medo,
Medo do medicamento,
Medo do raio,
Do trovão e do tormento,
Medo pelos meus e medo de acidentes,
Medo de judeus, negros, árabes, chineses,
Medo do “eu bem te disse”,
Medo de dizer tolice,
Medo da verdade, da cidade e do apocalipse,
O medo da bancarrota e o medo do abismo,
O medo de abrir a boca e do terrorismo.

Medo da doença,
Das agulhas e dos hospitais,
Medo de abusar,
De ser chato e de pedir demais,
De não sermos normais,
De sermos poucos,
Medo dos roubos dos outros e de sermos loucos,
Medo da rotina e da responsabilidade,
Medo de ficar para tia e medo da idade,
Com isto compro mais cremes e ponho um alarme,
Com isto passo mais cheques e adormeço tarde,
Se não tomar a pastilha,
Se não ligar à família,
Se não tiver um gorila à porta de vigília,
Compro uma arma,
Agarro a mala,
Fecho o condomínio,
Olho por cima do ombro,
Defendo o meu domínio,
Protejo a propriedade que é privada e invade-me a vontade de pôr grade à volta da realidade, do país e da cidade,
Do meu corpo e identidade,
Da casa e da sociedade,
Família e cara-metade…
Eu tenho tanto medo…
Nós temos tanto medo…
Eu tenho tanto medo…

O medo paga a farmácia,
Aceita a vigilância,
O medo paga à máfia pela segurança,
O medo teme de tudo por isso paga o seguro,
Por isso constrói o muro e mantém a distância!
Eles têm medo de que não tenhamos medo.

 (o poema mantém a ortografia original)

Capicua foi a nossa seleção musical. Ela é Ana Matos Fernandes, nascida e criada no Porto. É licenciada em Sociologia e, talvez por isso, as suas canções são denúncia de realidades sociais a combater. Mas as suas letras também exploram a ideia de que todos somos feitos de duas metades, como o nome artístico da cantora de Hip Hop sugere: no catalão cap i cua significa cabeça e cauda.

A canção “O Medo do Medo” é fantástica e assombrada de tantos medos que não há medo que não esteja lá! Escolher alguns versos mais marcantes foi difícil, mas, pensando na obra de Luís Sttau Monteiro, a escolha tornou-se mais fácil. E assim os “nossos” versos são:

 “Medo de deus e medo da polícia, / Medo de não ir para o céu e medo da justiça, / Medo do escuro, do novo e do desconhecido” / Medo do caos e do povo e de ficar perdido / (…) Eles têm medo de que não tenhamos medo” 

O peso do poder de Deus e dos que governam injustamente em nome do rei está refletido nestes versos. Os populares não têm como escapar e, sempre que os dois polícias se aproximam, ou os tambores ou os sinos tocam, o medo nasce e apodera-se de todos.

Era tão bom que o mundo não tivesse medo! 

Rita, nº 15 e Paulo, nº 13

BOSS AC, QUE DEUS

Há perguntas que têm que ser feitas…

Quem quer que sejas, onde quer que estejas,
Diz-me se é este o mundo que desejas,
Homens rezam, acreditam, morrem por ti,
Dizem que estás em todo o lado mas não sei se já te vi,
Vejo tanta dor no mundo: pergunto-me se existes,
Onde está a tua alegria neste mundo de homens tristes?
Se ensinas o bem porque é que somos maus por natureza?
Se tudo podes porque é que não vejo comida à minha mesa?
Perdoa-me as dúvidas, tenho que perguntar,
Se sou teu filho e tu me amas porque é que me fazes chorar?
Ninguém tem a verdade o que sabemos são palpites
Se sangue é derramado em teu nome é porque o permites?
Se me destes olhos porque é que não vejo nada?
Se sou feito à tua imagem porque é que durmo na calçada?
Será que pedir a paz entre os homens é pedir demais?
Porque é que sou discriminado se somos todos iguais?

Porquê?!

Porquê que os Homens se comportam como irracionais?
Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais?
Porquê que a Paz não passa de ilusão?
Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê?
Peço perdão pelas perguntas que têm que ser feitas
E se eu escolher o meu caminho, será que me aceitas?
Quem és tu? Onde estás? O que fazes? Não sei…
Eu acredito é na Paz e no Amor…

Por favor não deixes o mal entrar no meu coração,
Dou por mim a chamar o teu nome em horas de aflição,
Mas tens tantos nomes, és Rei de tantos tronos,
E se o Homem nasce livre porque é que é alguns são donos?
Quem inventou o ódio, quem foi que inventou a guerra?
Às vezes acho que o inferno é um lugar aqui na Terra,
Não deixes crianças sofrer pelos adultos,
Os pecados são os mesmos o que muda são os cultos,
Dizem que ensinaste o Homem a fazer o bem,
Mas no livro que escreveste cada um só leu o que lhe convém,
Passo noites em branco quase sem dormir a pensar,
Tantas perguntas, tanta coisa por explicar,
Interrogo-me, penso no destino que me deste,
E tudo que acontece é porque tu assim quiseste,
Porque é que me pões de luto e me levas quem eu amo?
Será que essa é a justiça pela qual eu tanto reclamo?
Será que só percebemos quando chegar a nossa altura?
Se calhar desse lado está a felicidade mais pura,
Mas se nada fiz, nada tenho a temer,
A morte não me assusta o que assusta é a forma de morrer…

Porquê que os Homens se comportam como irracionais?
Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais?
Porquê que a Paz não passa de ilusão?
Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê?
Peço perdão pelas perguntas que têm que ser feitas
E se eu escolher o meu caminho, será que me aceitas?
Quem és tu? Onde estás? O que fazes? Não sei…
Eu acredito é na Paz e no Amor…

Quanto mais tento aprender, mais sei que nada sei,
Quanto mais chamo o teu nome menos entendo o que te chamei!
Por mais respostas que tenha a dúvida é maior,
Quero aprender com os meus defeitos, acordar um homem melhor,
Respeito o meu próximo para que ele me respeite a mim,
Penso na origem de tudo e penso como será o fim,
A morte é o fim ou é um novo amanhecer?
Se é começar outra vez então já posso morrer…

(Ao largo ainda arde a barca da fantasia,
o meu sonho acaba tarde,
acordar é que eu não queria…)

O tema musical que escolhi para a minha apresentação oral é cantado por Ângelo César do Rosário Firmino, mais conhecido no mundo musical como BOSS AC. Este músico não canta apenas hip-hop, mas também R&B e Rap.

Em “Que Deus?”, questiona-se Deus de uma forma indignada (“Quem és tu? Onde estás? O que fazes? Não sei…”), por causa da fome que há por todo o mundo. Questiona-se Deus também por causa da morte, das guerras, dos crimes, da injustiça e da maldade do ser humano, ou seja, que deus é este que permite que todas estas “coisas” más aconteçam?

Esta canção pode relacionar-se com Felizmente Há Luar, obra escrita por Luís Sttau Monteiro, no século passado. Essa relação tem a ver com o modo como os governadores do reino (universo dos dominadores) utilizam o nome de Deus para controlar o povo (universo dos dominados), para ditar as “suas” leis e, assim, fazerem o que bem entenderem com os populares inocentes, que acreditam no que lhes dizem sobre esse “grandioso” Deus, que eles fizeram à  imagem.

Nelson, nº 12

Anúncios

Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

3 opiniões sobre “Felizmente há luar (5)”

  1. Rita e Paulo,

    Gostei (gosto) mesmo muito da vossa escolha musical! A letra é, de facto, fantástica: é como vocês dizem, e bem, “não há medo que não esteja lá”! E vocês apanharam tudo o que era essencial, estabelecendo pertinentes pontes com “Felizmente há luar”!
    É caso para dizer: “Não há que ter medo. Missão cumprida!”.
    IA

    Nelson,
    Trouxeste Boss AC com Teresa Salgueiro em fundo musical! Esta mestiçagem (não sei se este termo, usado nas artes plásticas, é válido em termos musicais, mas fica.) resulta mesmo bem e a letra da canção do rapper português revela uma relação difícil com o Divino, que tu viste e relacionaste de modo bastante pertinente com a obra.
    Foi um momento introspetivo muito bonito! Parabéns!
    IA

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s