Amanhecer com Cesário… Anoitecer com Ella…

Breve interrupção deste intervalo grande, a que chamamos férias de verão.

Porque já foram “Dez horas da manhã“, mas “os transparentes / Matizam uma casa apalaçada“, ainda… E há “brancuras quentes” que persistem!…

Dito por Maria José Peixoto e Vítor Oliveira, ambos professores, um ainda na nossa ESG e outro quase de partida lá mais para sul. O meu muito obrigada por esta partilha, postada no YouTube há já um ano.

«Num bairro moderno

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
“Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…”

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário – que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.»

O Livro de Cesário Verde

E agora é um quando a noite e o dia se opõem, muito ao gosto romântico, em que as sombras predominam e sufocam a luz.

Continuação de boas férias! (Eu cá continuo com minhas provas de exame…)

IA

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Celebrando a Vida

Dois poemas para começar a semana…

A vida é um milagre.

Cada flor

com sua forma, sua cor, seu aroma,

cada flor é um milagre.

Cada pássaro

com sua plumagem, seu canto, seu voo,

cada pássaro é um milagre.

O espaço, infinito,

o espaço é um milagre.

O tempo, infinito,

o tempo é um milagre.

A memória é um milagre.

A consciência é um milagre.

Tudo é um milagre.

 Manuel Bandeira

Continuação de boas férias (eu cá estou entretida com os “meus” exames)!

IA

Cinema: O Mercador de Veneza

Porque as férias para os meus dezassete magníficos estão quase aí, sugiro o visionamento de O Mercador De Veneza. Realizado em 2004 por  Michael Radfort e baseado na peça homónima de William Shakespeare, o filme está disponível aqui: 

É certo que o ideal seria vê-lo no grande ecrã, ou seja, no cinema. Mas à falta de sala, cá nos vamos entretendo neste pequeno cantinho do Paraíso… (Espero não estar a cometer nenhuma infração, mas a película está disponível no YouTube e não fiz qualquer download.)

As interpretações de Lynn Collins (Portia) e de Joseph Fiennes (Bassanio) não ficam aquém das de Al Pacino (o judeu Schylock) e de Jeremy Irons (Antonio), como se poderia, à partida, supor. O texto é uma das obras-primas do grande poeta e dramaturgo inglês. Aconselho todos a, se possível, adquirirem DVD original.

E agora e porque não conto visitar este nosso Bem-Vindo ao Paraíso antes de setembro, resta-me desejar-vos umas boas férias e um bom descanso!

IA

Uma espécie de Camões 2, misturado com Bosch

A propósito do artigo anterior surge este. Também porque achei que se justifica trazer à luz do século XXI o mundo da Idade Média e do século XVI, aquele que o poeta português e o pintor holandês partilharam (com algumas nuances, claro!).

Ficam então aqui dois vídeos: o primeiro, sobre o quadro donde saiu a imagem que ilustra a esparsa camoniana; o segundo, sobre o pintor que o criou (ao minuto 23 encontramos uma referência a esse quadro). Chamo a atenção para o facto de o primeiro estar titulado, como sendo A tentação de Santo António. No entanto, também é comum ver o tríptico de Bosch denominado como As tentações de Santo Antão. De qualquer modo, o santo é o mesmo e não é o nosso Santo António, mas sim outro que viveu no século  IV. 

As tentações de Santo Antão

A banda sonora deste vídeo (tema criado para o filme O Ilusionista, de Neil Burger) saiu da mão e do génio de Philip Glass e proporciona-nos uma belíssima viagem no tríptico do criativo, enigmático e genial pintor holandês. 

Hieronymus Bosch, El Bosco

Boas viagens!

IA

Camões, grande Camões…

Porque hoje é dia do Poeta, deixo aqui uma das suas esparsas, por sinal bastante atual, e composta em vocabulário simples, como exige a temática, que se quer ver entendida por todos.

A rima é, nesta pequena composição poética, um precioso auxiliar na retenção da informação. Convém, de facto, memorizar bem a sistematicidade deste desconcerto, com o qual somos diariamente confrontados ! 

Hieronymus Bosch, As Tentações de santo Antão (pormenor)

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O eu lírico, a seu modo, tentou a felicidade, imitando “os maus”, cedendo assim às suas tentações, mas a Vida, o Mundo, sempre cruel com ele, surpreendentemente fez justiça…

Apesar de tudo, continuamos a acreditar que é possível o Paraíso!

Um bom dia de Camões (e afins) para todos!

IA 

Um intervalo bem sentido

Na voz de Nina Simone, canção para fim de semana…

FEELING GOOD

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin’ on by you know how I feel 

refrain:
It’s a new dawn
It’s a new day
It’s a new life
For me
And I’m feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom on the tree you know how I feel

refrain

Dragonfly out in the sun you know what I mean, don’t you know
Butterflies all havin’ fun you know what I mean
Sleep in peace when day is done
That’s what I mean

And this old world is a new world
And a bold world
For me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Oh freedom is mine
And I know how I feel

IA

Tela: Marc Chagall, Over the Town (1913)

 

Do Azul ao Negro…

O poema é de David Mourão-Ferreira, foi interpretado por Amália e, agora, está aqui com outra roupagem.

BARCO NEGRO

De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas…
São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança
areia nos vidros,
na água que canta,
no fogo mortiço,
no calor do leito,
nos bancos vazios,
dentro do meu peito
estás sempre comigo.

Boas viagens!

IA