1.º Aniversário

Hoje, o Bem-Vindo ao Paraíso celebra o seu primeiro aniversário. Por isso, ficam o poema de Álvaro de Campos, o de Luís de Camões e a canção de Mercedes Sosa.

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… 
A que distância!… 
(Nem o acho… ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes… 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos … 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim… 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui… 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! …

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos, in “Poemas”

 E porque, com o correr do tempo, tudo muda, de facto!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos” 

  

IA

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Frei Luís de Sousa

Aproveitando sempre o que os outros fazem bem… 

Caros alunos, aconselho a leitura atenta dos diapositivos presentes no link abaixo.

Bom trabalho!

IA

“Sermão de Santo António” – Fragmentos textuais 3

“No Sermão de Santo António, a Rémora é um peixe virtuoso pois, mesmo sendo pequeno de corpo, é grande em força e poder.

Padre António Vieira compara este peixe com Santo António, porque a sua palavra guia, orienta os homens e afasta-os do perdição. Por isso, o provérbio “Quem me repreende do mal me defende!” pode relacionar-se com a Rémora e Santo António, cujo poder da palavra aconselha, orienta as almas, fazendo-as repelir o mal.”

Sérgio

 

“O Sermão de Santo António é também uma homenagem ao mesmo, pois foi pregado por padre António Vieira (PAV) no dia em que se celebrava o aniversário da morte do santo (13 de junho de 1654).

Através desta alegoria, já utilizada pelo próprio santo que a criou, PAV pretende não só comparar as qualidades (virtudes) de quatro peixes com as de Santo António mas também comparar os defeitos de outros quatro seres marinhos com os dos humanos, ou seja, mostrar que as virtudes e os defeitos dos peixes são semelhantes quer às qualidades a louvar no santo quer aos defeitos a repreender nos homens.  (…)

Apesar de já terem passado 360 anos da data em que foi pregado, este sermão continua atual, pois os homens continuam a cometer os mesmos pecados e a revelar os mesmos defeitos, infelizmente!” 

Diana

 

“O Torpedo é referido no capítulo III do Sermão de Santo António, na parte designada exposição/confirmação. É um peixe virtuoso, que, apesar de pequeno, consegue fazer tremer “a cana do pescador”. Padre António Vieira compara este pescador  do mar com os “pescadores da terra” que, com varões, bastões e cetros, “pescam” reinos e cidades sem que nada os faça “tremer”, e espera  que, tal como o Torpedo faz tremer o pescador, o seu sermão consiga fazer tremer os poderosos do Maranhão e os faça arrepender das suas ações. (…)

Ao fazer alusão aos poderosos que pescavam reinos e cidades sem que nada nem ninguém os impedisse e sem ter em conta os homens mais “pequenos”, o orador pretende chamar a atenção do auditório para o direito à igualdade, à liberdade e ao respeito do ser humano, pois ninguém deve subjugar os outros.”

João Paulo

 

“No capítulo III do Sermão de Santo António (que faz parte da exposição/confirmação), padre António Vieira (PAV), após ter explicitado as virtudes dos peixes em geral, passa ao particular e começa por nos dar, como exemplo, um peixe mitológico, bíblico: o Santo Peixe de Tobias. (…) A comparação deste peixe virtuoso com Santo António faz-se através das qualidades do santo: cristãs e de pregação. (…)

Quanto aos Roncadores, que são peixes carregados de defeitos, estes aparecem no capítulo V do sermão. PAV, nestes seres, critica a sua arrogância, o seu modo orgulhoso e soberbo de agir. Mas relembra que, por serem assim, também são mais fáceis de apanhar… Por isso, o orador aconselha-os a imitar santo António, que nunca se elevou nem vangloriou pelos seus feitos, como costumam fazer estes peixes.”

Ana Rita

“O Sermão de Santo António pode ser considerado uma espécie de resumo, um espelho da sociedade humana, tanto a do século XVII como a do séc. XXI. Digo isto, pois muitas críticas apontadas aos peixes (leia-se humanos) naquele tempo continuam atuais. Assim, este sermão torna-se intemporal e, por isso, serve de exemplo para todas as gerações, porque, independentemente de tudo o que possamos fazer para os evitar, cometeremos sempre os mesmos erros. 

Ao longo da obra está bem presente o conceito predicável inicial: “Vós sois o sal da terra.”, o que significa que os pregadores têm a grande missão de afastar o mal e conservar o bem. (…) Mas, nós, os humanos, tornamos este conceito inválido, pois o nosso sal é impuro e é-o graças à nossa falsidade, à nossa hipocrisia. Ainda há pouco tempo, passou nas notícias televisivas uma chocante: certas pessoas abandonam no hospital idosos, com o objetivo de se aproveitarem dos seus bens! (…) Aliás, os mais idosos são presas fáceis para os “polvos” que vivem disfarçados entre nós.”

Cristina

NOTA: As imagens presentes nestes três últimos artigos foram retiradas do Google Imagens.

“Sermão de Santo António” – Fragmentos textuais 2

“O polvo é a última criatura marinha a ser criticada no capítulo V do Sermão de Santo António. Este “peixe” tem a capacidade de simular a brandura e a mansidão; contudo, debaixo desta aparência serena é “o maior traidor do mar”. O polvo engana os outros peixes com malícia e mentira, caçando-os mais facilmente, acabando por ser falso, hipócrita e traiçoeiro. Podemos afirmar que o polvo simboliza todos aqueles homens que, por interesse, se aproximam dos outros dissimulando ajuda e servidão para, mais tarde, os atraiçoar e, se for o caso, se apoderarem dos seus bens.

Com tudo isto, podemos constatar a forma metafórica como padre António Vieira retrata, no século XVII, a humanidade e que a sua visão sobre ela permanece atual.”

Inês Peixoto

 

“É bem certo o provérbio “Quem a boa árvore se encosta, boa sombra o acolhe!” E, quando aplicado, por contraste, ao Pegador, o adágio popular cabe na perfeição, pois este peixinho, ao pegar-se (ao colar-se) aos peixes maiores, fica na sua sombra, correndo o risco de perder a sua identidade. Se pensarmos nos homens, o parasitismo implica também a perda do prestígio que se pode ter quando alguém se cola a um homem poderoso. Alguns filhos são assim: não conseguem viver por si próprios e mantêm-se “colados” aos pais.”

Maria Rocha 

 

“O Torpedo é um peixe cheio de virtudes: apesar de pequeno, com a sua energia/força de vontade, faz temer o braço ao pescador, impedindo-o de pescar. Com este peixe, padre António Vieira faz uma crítica aos pregadores que não conseguem pregar aos homens a verdadeira doutrina cristã, a verdadeira fé, o verdadeiro caminho, pois pregam o bem, mas praticam o mal. Assim, os homens preferem imitar o que eles veem no pregador e não o que ele diz, ou seja, a  pregação do último não  faz tremer os primeiros.”

Joana Rodrigues

 

“O Quatro-Olhos, o peixe virtuoso que escolhi para este trabalho, é referido no capítulo III do Sermão de Santo António. É um peixe pequeno, quanto ao seu tamanho, mas grande em força e em poder. Os seus quatro olhos permitem-lhe vigiar os inimigos do mar, os peixes, (com os dois olhos que estão virados para baixo) e os do céu, as aves, (com os outros que estão virados para cima). Assim sendo, com os olhos inferiores, acautela-se do inferno e, com os superiores, deve procurar o paraíso, que o elemento céu simboliza.

Este peixe representa a fé e o uso da razão, transmitindo assim a seguinte mensagem: “o cristão tem o dever   de afastar os olhos da vaidade terrena, olhando para o céu e não esquecendo o inferno. Deste modo, o Quatro-Olhos tem a opção de praticar o bem (olhando diretamente para cima) ou o mal (olhando diretamente para baixo).”

Inês Santos

 

“O provérbio que melhor combina com o polvo é “Com papas e bolos se enganam os tolos.”. Este adágio identifica-se muito com este ser, porque ele parece ser o que não é, tem um efeito camaleão, adaptando-se a qualquer ambiente e camuflando-se. Com esse estratagema, engana as suas vítimas, que se aproximam, sendo atacadas. (…) É pior que Judas, que traiu Cristo às claras. O Polvo trai às escuras, com as suas emboscadas.

É comparado com muitos homens “grandes” (poderosos), porque é parecido com eles, mas é comparado, por contraste, com Santo António, porque é o contrário dele: é o maior exemplo de conduta, de verdade e sinceridade, pois nunca houve mentira no santo.”

Ana Beatriz

 

Não eram só os peixes que ouviam
António e veneravam atentamente a palavra de Deus…

Esta mula (ou burrico), segundo reza a lenda,  fez o mesmo na região de Toulouse, França.

 

                                                               IA

“Sermão de Santo António” – Fragmentos textuais 1

Padre António Vieira escreveu O Sermão de Santo António, com o intuito de louvar as virtudes do santo mas também de censurar os vícios/defeitos dos homens. Para isso, utiliza os peixes para chegar aos homens: quatro peixes a enaltecer e quatro, a criticar. (…) 

O pregador defendia que Santo António, tal como o Santo Peixe de Tobias, possuía um coração bom e puro e que as suas palavras tinham o poder de influenciar a audiência. (…) Tal como o peixe, Santo António tinha um coração capaz de afastar os valores, as atitudes negativas e as suas palavras “abriam os olhos”, à audiência, aos pecadores, para que estes mudassem o seu comportamento.”

Maria Santos

 

“Com os Roncadores, Padre António Vieira faz, basicamente, una crítica aos homens que são presunçosos, vaidosos, realçando que são pequenos, insignificantes, mas falam muito, gabam-se demasiado, querem parecer mais poderosos do que, realmente, são. Não têm grandes qualidades, mas precisam de se afirmar, por isso, são acusados de muita arrogância  e pouca firmeza. (…) É então que o orador apresenta alguns exemplos bíblicos que, em certos momentos (episódios), se aproximam deste “peixezinho”: S. Pedro, Golias, Caifás e Pilatos.”

Jéssica

 

“O Sermão de Santo António, de Padre António Vieira, é uma obra em que se condena os comportamentos negativos dos Homens. Este texto pode ser considerado intemporal pois, apesar de ter sido escrito no século XVII, nele repreendem-se comportamentos ainda atuais.

Vieira, ao longo do seu sermão, mostra um contraste constante entre os homens mais fracos (mais desfavorecidos) e os mais fortes (poderosos), através das repreensões que vai fazendo aos peixes, que, segundo ele, são como os homens: “comem-se uns aos outros”, isto é, os mais ricos “comem” os mais pobres. Isto continua a ser atual, infelizmente! (…)

A maioria de nós deixa-se levar pelo interesse, pela vontade de ter mais, de ser “algo” mais na vida.  (…) Mas temos de começar a pensar mais nos outros e não apenas em nós. Temos de ser mais humildes…”

Daniela

 

“Os voadores são criticados por padre António Vieira (PAV), no Sermão de Santo António pois, como muitos homens, são gananciosos e querem ser mais do que aquilo que lhes foi atribuído naturalmente, isto é, os voadores, porque têm características físicas diferentes das dos outros peixes (barbatanas maiores), usam essas características para se “tornarem” aves…

No fundo, estas críticas de PAV são um conselho aos peixes e aos homens para estes agradecerem a Deus o que lhes foi atribuído.” 

Gonçalo

SER PESSOA

Pessoas são muito mais que pessoas… Muito mais que corpos, que matéria…  Pessoas são almas, essência…

Sendo assim, o que é ser Pessoa?

Pessoa é uma Arte e Arte é entregarmo-nos a alguém no sentido mais puro do verbo.

A entrega de um corpo, de uma alma, dos seus íntimos medos e segredos é dos gestos mais bonitos da humanidade. Gestos que deveriam ser mais sentidos, mais vividos intensamente. Gestos de todos os dias…

Pois, a vida de cada pessoa é como um jardim que espera a chegada da primavera, o despertar dos amores! É como um livro aberto que desespera pelo seu poeta! É como uma tela branca que anseia que a pintemos!

Assim…

Pessoa é pintor. Pessoa é poeta. Pessoa é aquele que ama…

Imaginemos agora um possante leão com a sua força varonil e um delicado anjo repleto de graciosidade. Não podemos nós encontrar estes dois seres numa só Pessoa?

Cada ser humano é tão genuíno, tão diverso e tão completo ao mesmo tempo!… Cada ser humano é tão PESSOA!

Nem que dedicássemos todo o nosso tempo a estudar vários indivíduos seríamos capazes de os decifrar, porque cada Pessoa é um ser único.

E em cada Pessoa existe algo diferente, algo que provoca instabilidade noutra Pessoa… E é tão simples, pois consegue-se tocar o interior de outra Pessoa através da profundidade de olhares, com os mais silenciosos silêncios.

Isto é Arte! Isto é ser Pessoa!

Joana Costa

24 horas sem David Bowie…

Este é um blogue espécie aula de Português, mas todos aqui cabem. Desde que sejam paraíso!…

Por isso…

Apenas (n)um filme que lhe pediu emprestada canção para banda sonora…

Ground control to major Tom

E como narrador numa música (não sua) com uma história dentro…

E um pedacinho de Miguel Esteves Cardoso sem o seu genial David Bowie:

Pela primeira vez nas nossas vidas sabemos o que David Bowie vai fazer