Uma outra Páscoa

Como a poderia dizer Caeiro, que a disse sem lhe chamar Páscoa. Porque Páscoa é (também) passagem.

E porque, como diz o poeta, as coisas são o que são e ponto final. E, depois delas, outras coisas são.

“Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta
o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta e a flor
É apenas flor.”

                                            in O Guardador de RebanhosPoema XL

 

“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva …

O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …” 

                                           in O Guardador de Rebanhos – Poema XXI

 

“Passou a diligência pela estrada, e foi-se; 
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia. 
Assim é a ação humana pelo mundo fora. 
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos; 
E o sol é sempre pontual todos os dias.”

                                           in O Guardador de Rebanhos – Poema XLII 

Uma Santa Páscoa!

IA

Anúncios

Antero de Quental… a Só(s) num trio

Edvard Munch, Melancolia

A Alberto Teles

 Só! – Ao ermita sozinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céu tenha. . .

Só! – Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança;
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que à noite soluça em erma penha. . .

Só! – Não o é quem na dor, quem nos cansaços,
Tem um laço que o prenda a este fadário,
Uma crença, um desejo. . . e inda um cuidado. . .

Mas cruzar, com desdém, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitário,
Isto é ser só, é ser abandonado!

Antero de Quental, in Sonetos Completos. Ulisseia

E para acompanhar Antero e Munch nesta (não) solidão, fica também Heitor Villa-Lobos.

Tenham um ótimo fim de semana!

IA

Antecipando a Páscoa, com São Patrício…

Na ESG, o grupo disciplinar de Inglês celebra hoje o dia deste santo tão irlandês e convida alunos, professores e funcionários a vestirem uma peça verde.

Aqui fica, “surripiado” de site brasileiro, uma brevíssima apresentação do santo.

IA

“Já imaginou andar pelas ruas de Dublin e dar de caras com um homenzinho com o aspeto de Gandalf, personagem mítica do Senhor dos Anéis? Pois acredite, a Irlanda já esteve repleta de Gandalfs, não só pela aparência mas também porque rodeados de mistério e dotados de poderes sobrenaturais, ou seja, espécimes dignos das perseguições que já se faziam sentir por parte da Igreja Católica, no século V. Foi nesse ambiente de contrastes e afirmação da fé cristã que surgiu a figura de São Patrício, um jovem ex-escravo e sacerdote, incumbido de levar a doutrina Cristã para a Ilha Verde. (…)

São Patrício foi um diplomata daquele tempo. Ao contrário do que acontecia no resto da Europa, onde a fé católica era imposta pelo Império Romano, muitas vezes com apelo a conflitos armados, São Patrício foi muito mais inteligente e sagaz. Quis conhecer intimamente as crenças dos Druidas e, pouco a pouco, foi misturando elementos da fé cristã com os da cultura local. Querem um exemplo? O trevo! Elemento mais irlandês do que este não há e não foi, de facto, nenhuma inovação trazida pelo santo. A população pagã de cultura celta também já acreditava no conceito de uma trindade, só que, para ela, a representação era corpo, alma e mente. São Patrício apenas “adaptou” algo que já existia e passou a doutrinar os Druidas, usando o trevo para explicar a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Nem é preciso dizer que o que já era bom ficou ainda melhor, não é? Trino e Santo, pronto! Era aquilo de que os Druidas precisavam para simpatizar com fé cristã.”

in, https://www.e-dublin.com.br/entenda-quem-foi-sao-patricio/ (texto adaptado)

ANEDOTA – Texto jurídico e afins…

Digamos que é um ótimo exemplo para se proceder ao levantamento das características deste tipo de discurso.

Resultado de imagem para texto jurídico

Um professor da Faculdade de Direito de Lisboa perguntou a um dos seus alunos:

– Laurentino, se você quiser dar uma laranja a uma pessoa chamada Sebastião, o que deverá dizer? 

O estudante:

 – Aqui está, Sebastião, uma laranja para si.

 O professor, furioso:

  – Não! Não! Pense como um Profissional de Direito!

   O estudante pensou um pouco e respondeu:

 «Eu, Laurentino Marcos Rosa Sentado, Advogado, por meio desta dou e concedo a você, Sebastião Lingrinhas, portador do BI n.º 6543254, NIF 50829092, morador na Rua do Alecrim, 32, A, do concelho de Vila Nova de Gaia, casado, com dois filhos e um enteado, e somente a você, a propriedade plena e exclusiva, inclusive benefícios futuros, direitos, reivindicações e outros títulos, obrigações e vantagens no que concerne à fruta denominada laranja, juntamente com sua casca, sumo, polpa e sementes, transferindo-lhe todos os direitos e vantagens necessários para espremer, morder, cortar, congelar, triturar ou descascar com a utilização de quaisquer objetos ou de outra forma comer, tomar ou ingerir a referida laranja, ou cedê-la com ou sem casca, sumo, polpa ou sementes; e qualquer decisão contrária, passada ou futura, em qualquer petição, ou petições, ou em instrumentos de qualquer outra natureza ou tipo, fiscal ou comercial, fica assim sem nenhum efeito no mundo citrino e jurídico, valendo este ato entre as partes, seus herdeiros e sucessores, com carácter irrevogável, declarando Sebastião Lingrinhas que o aceita em todos os seus termos e condições, conhecendo perfeitamente o sabor da laranja, não se aplicando, neste caso, o disposto no Código do Consumidor, cláusula 28, alínea b), com a modificação dada pelo DL 342/08 de 1979.»

             O professor:

            – Está melhor. MAS  NÃO  SEJA  TÃO  SUCINTO!

Recebido via e-mail

IA