Os Maias – a crónica de costumes

Capítulo X

As Corridas no Hipódromo

Edgar Degas, O Desfile

 “No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu fáeton de oito molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se instalara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belém, no momento em que para o lado do Hipódromo estavam já estalando foguetes. Um dos criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, numa tosca guarita de madeira, armada ali de véspera, onde se mexia um homenzinho de grandes barbas grisalhas. Era um dia já quente, azul ferrete, com um desses rutilantes sóis de festa que inflamam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, põem fulgores de espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca faiscação de cal, de um vivo monótono e implacável, que na lentidão das horas de verão cansa a alma, e vagamente entristece.

No largo dos Jerónimos silencioso, e a escaldar na luz, um ónibus esperava, desatrelado, junto ao portal da Igreja. Um trabalhador com o filho ao colo e a mulher ao lado, no seu xaile de ramagens, andavam ali, pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gozar ociosamente o seu domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programas das corridas que ninguém comprava. A mulher da água fresca, sem fregueses, sentara-se com a sua bilha à sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados municipais a cavalo patrulhavam a passo aquela solidão. E à distância, sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.

No entanto o trintenário continuava debruçado na guarita, sem poder arranjar lá dentro o troco de uma libra. Foi necessário Craft saltar da almofada, ir lá parlamentar, enquanto Carlos, impaciente, raspando com o chicote as ancas das éguas, luzidias como um cetim castanho, riscava no largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim governando, irritadamente, sem descerrar os lábios. É que toda aquela semana, desde a tarde em que combinara com o Dâmaso a visita aos Olivais, fora desconsoladora. O Dâmaso tinha desaparecido, sem mandar a resposta dos Castro Gomes. Ele, por orgulho, não procurara o Dâmaso. Os dias tinham passado, vazios, não se realizara o alegre idílio dos Olivais, ainda não conhecia Madame Gomes, não a tornara a ver, não a esperava nas corridas. E aquele domingo de festa, o grande sol, a gente pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-no de melancolia e de mal-estar. […] 

À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada num muro de quintarola, o fáeton teve de parar atrás do dog-cart do homem gordo, que não podia também avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um polícia. Queria que se fosse chamar o Sr. Savedra! O Sr. Savedra, que era do Jockey Club, tinha-lhe dito que ele podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho dissera na véspera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o Sr. Savedra! O polícia bracejava, enfiado. E o cavaleiro, tirando as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem, quando, trotando na grande horsa, um municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavaleiro gordo, fez rodar para ele a caleche. Outro municipal intrometeu-se, brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E através do reboliço, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, um realejo tocando a Traviata. […]

Diante deles, o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem larga e repousante chegava vagarosamente do rio.

Édouard Manet

No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, de onde sobressaíam tons claros de sombrinhas, o faiscar de um vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial. A da esquerda vazia, por pintar, mostrava à luz as fendas do tabuado.

imagem do filme Os Maias, realizado por João Botelho

Na da direita, besuntada por fora de azul claro, havia uma fila de senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, de um tom alvadio de madeira, que abafava as cores alegres dos raros vestidos de verão. Por vezes, a brisa lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas. Um grande silêncio caía do céu faiscante.

Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia mais soldados de infantaria, com as baionetas lampejando ao sol. E no homem triste que estava à entrada, recebendo os bilhetes, metido dentro de um enorme colete branco, reteso de goma, e que lhe chegava até aos joelhos – Carlos reconheceu o servente do seu laboratório.

Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira à porta do bufete onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos amarelos ao peito, polainas brancas, e queria animar as corridas. Já vira a Mist, a égua de Cliford, e decidira apostar pela Mist. Que cabeça de animal, meninos, que finura de pernas!…

– Palavra que me entusiasmou! E está decidido, um dia não são dias, é necessário animar isto! Aposto três mil réis. Quer você Craft?

– Pois sim, talvez, depois… Vamos primeiro ver o aspeto geral.

No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a gente do Grémio, das Secretarias e da Casa Havanesa; a maior parte à vontade, com jaquetões claros, e de chapéu coco; outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo a tiracolo, pareciam embaraçados e quase arrependidos do seu chic. Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro, parado, de mãos atrás das costas, pasmava languidamente para as senhoras. Ao lado de Carlos dois brasileiros queixavam-se do preço dos bilhetes, achando aquilo «uma sensaboria de rachar.»

Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados: e junto à corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, com as carruagens pelo meio, sem um rumor, numa pasmaceira tristonha, sob o peso do sol de junho. […]

Edgar Degas, O Hipódromo

– Vamos nós ver as mulheres, disse Carlos.

Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como de uma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm no high-life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos sérios de missa.

Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados à Gainsborough, que então se começavam a usar, carregava de uma sombra maior o tom trigueiro de uma carinha miúda. E na luz franca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apareciam murchas, gastas, moles, com um baço de pó de arroz. […]

– É um canteirinho de camélias meladas, disse o Taveira, repetindo um dito do Ega.

Carlos, no entanto, fora falar à sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã.

Edouard Manet, Spring

Era a única senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ela disse, não aturara a seca de estar lá em cima perfilada, à espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bela ainda sob os seus cabelos já grisalhos, só ela parecia divertir-se ali, muito à vontade, com os pés pousados na travessa de uma cadeira, o binóculo no regaço, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes por meninos...  […]

Apenas Carlos se sentou ao pé dela, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega.

Esse aventureiro, disse Carlos, estava em Celorico compondo uma comédia para se vingar de Lisboa, chamada o Lodaçal…

– Entra o Cohen? perguntou ela, rindo.

– Entramos todos, Sr.ª D. Maria. Todos nós somos lodaçal…

Nesse momento, por trás do recinto, rompia, com um taran-tan-tan molengão de tambores e pratos, o hino da Carta, a que se misturou uma voz de oficial e o bater de coronhas. […]

– E este hino, então, que é medonho, dizia Carlos. A Sr.ª D. Maria não sabe a definição do Ega, e a sua teoria dos hinos? Maravilhosa!

– Aquele Ega! dizia ela sorrindo, já encantada.

– O Ega diz que o hino é a definição pela música do carácter de um povo. Tal é o compasso do hino nacional, diz ele, tal é o movimento moral da nação. Agora veja a Sr.ª D. Maria os diferentes hinos, segundo o Ega. A Marselhesa avança com uma espada nua. O God save the queen adianta-se, arrastando um manto real…

– E o hino da Carta?

– O hino da Carta ginga, de rabona.”

In http://www.livros-digitais.com/eca-de-queiros/os-maias/86 (texto com supressões)

Aqui – http://portugues-fcr.blogspot.pt/2012/04/episodio-das-corridas-de-cavalos.html – podemos ver esquematizados os diferentes momentos deste episódio de Os Maias, bem como os diversos aspetos criticados.

Uma leitura bem-humorada, com “banda sonora” em fundo, e boas aprendizagens!

IA

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Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

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