Intervalando “en français”…

Citando livremente Stephan Eicher, direi: Car je veux déjeuner en paix… E as notícias que nos vão assaltando não o permitem, de facto…

BREVE PARÊNTESIS
(Já há muitos anos que não ouvia isto… Isto, que várias vezes levei para as minhas aulas de francês!…)

Tenham um excelente fim de semana!

IA

Complemento do Nome

Visto que este é um conteúdo sintático ainda a trabalhar com mais rigor, surge o artigo seguinte (que sofreu alguns cortes), pedido emprestado ao blogue Carruagem 23. Porque “Quem sabe sabe!”…

Aqui se pretende, a partir de alguns exemplos, estabelecer a diferença entre complemento do nome e modificador do nome restritivo.

Desde já o meu agradecimento ao professor Vítor Oliveira.

IA

“Novo desafio linguístico: ser ou não ser modificador

    (…)
1) O pai do João comprou um carro novo.

(1’: ‘ do João’ é complemento do nome [‘pai’ – nome de parentesco])

2) Para sobremesa, pedi bolo de chocolate.

(2’: ‘de chocolate’ é modificador restritivo)

3) A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos.

(3’: ‘do presidente’ é complemento do nome [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão])

4) A viagem de comboio foi uma experiência agradável.

(4’: ‘de comboio’ é modificador restritivo)

5) O professor de Português a) pediu muita atenção na construção do texto b).

(5a’: ‘de Português’ é modificador restritivo; 5b’: ‘do texto’ é complemento do nome [‘construção’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do tema da construção])

     Na verdade, a configuração ‘de+N’ interna ao Grupo Nominal destacado corresponde a comportamentos sintácticos distintos: num caso, ‘de+N’ é um complemento requerido pelo núcleo nominal (‘pai’, em 1; ‘decisão’, em 3; ‘construção’, em 5b); noutro caso, trata-se de um modificador, pois o núcleo nominal (‘bolo’, em 2; ‘viagem’, em 4; ‘professor’, em 5a) não pede, na sua estrutura argumental, nenhuma forma de complementação .
     Tipicamente, os nomes que pedem complementos (podendo estes últimos estar ou não realizados nas frases, à semelhança do que acontece com os complementos dos verbos) são os seguintes:
nomes formados a partir de verbos transitivos (se o verbo transitivo de base tem uma estrutura argumental que requer complementos, o nome que deriva desse verbo admite a mesma propriedade, solicitando o agente, tema, possuidor associado ao nome – caso de ‘decisão’ <Alguém DECIDIR Algo>, por exemplo);
nomes de parentesco (caso de ‘pai’, ‘filho’, ‘irmão’);
nomes icónicos (caso de ‘fotografia’, ‘imagem’, ‘retrato’);
nomes epistémicos (caso de ‘hipótese’, ‘ideia’, ‘obrigação’, ‘dever’);
nomes relacionados com adjectivos simétricos (caso de ‘diferença’ / ‘semelhança’ [formados a partir de ‘diferente / semelhante’]);
(…)
      Nenhum destes casos é o de ‘bolo’, ‘viagem’ ou ‘ professor’, razão pela qual estes últimos estão seguidos de um modificador que lhes restringe a referência (modificador restritivo).
     A este propósito, confronte-se a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Maria Helena Mira Mateus (2003: 330-344 e 376-383).”

Um beijinho muito nosso para a Diana

Fi-lo em setembro de 2013… Hoje, nesta hora difícil, muito difícil para a nossa Diana, deixo-o aqui para ela. 

requiem ao crepúsculo

o sol encolhe-se

na dobra do mar

funde-se na

maresia

num marulhar purpúreo

 

da fímbria

bordada de escuma

estrelas-do-mar

cintilam

e

agitam-se

no céu de areia

 

o sol dorme

embalado nas vagas

a lua

vela esse sono

num sorriso

crescente

 

e

na noite

nós

(em sacrílego apego)

velamos a morte:

não choramos pelo que parte

choramos pela perda que fica…

 

requiem:

ao crepúsculo

num marulhar purpúreo

crescente

choramos pela perda que fica…

 IA

Os Maias e a Sonata Patética

Façamos de conta que é o maestro Cruges que toca aqui esta sonata. A tal sonata, mal tocada no sarau do Teatro da Trindade, que D. Maria da Cunha não conhecia e que a marquesa do Soutal disse chamar-se Pateta… 

Ainda gostaria, um dia, de aqui compilar todas as referências musicais que se ouvem nessa magnífica obra queirosiana. Uma espécie de banda sonora.

Um dia, talvez…

IA

Intervalando com uma segunda Suite Alentejana

Meio-dia: O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo. Ondeiam nos trigais
D’ouro fulvo, de leve… docemente…
As papoilas sangrentas, sensuais…

Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…

Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: Onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

Florbela Espanca
11/05/1916

Tenham um bom fim de semana!

IA

O estilo de Eça em “Os Maias”

Neste artigo, pretende-se partir do levantamento dos recursos expressivos mais explorados no excerto publicado no post anterior e proceder à sua interpretação. 

Esses recursos estão sistematizados na ficha anexada abaixo.

O estilo de Eça de Queirós em Os Maias

Podemos verificar, pela leitura atenta da tabela presente na ficha em anexo, que os recursos expressivos que apresentam estruturas linguísticas com valor semântico negativo/depreciativo se relacionam quer com os elementos humanos observados, façam eles parte da crónica de costumes ou não (como é o caso da personagem protagonista, Carlos da Maia) quer com a paisagem humanizada, ou seja, com tudo o que é construção nas ruas de Lisboa ou no espaço reservado ao hipódromo.

A natureza, pelo contrário, aparece maioritariamente descrita como um espaço aberto, inundado de luz e de cor, convidativo à deambulação e ao deleite através da exploração de sensações, que são (ou deveriam ser) ativadas no contacto direto com  a mesma. A paisagem natural só surge descrita com vocábulos cujos traços semânticos apresentam uma carga negativa, sempre que é perspetivada enquanto espaço que permite uma identificação do estado de espírito das personagens nela integradas, acabando por se assemelhar a  elas.

O predomínio da sensação visual (principalmente a cromática) adequa-se à estética impressionista, explorada nas artes plásticas dos finais do século XIX, nomeadamente na pintura, e é recorrente na técnica descritiva queirosiana (como o será também na lírica de Cesário Verde).

Também é de salientar o efeito cómico e a técnica da caricatura presentes em certas passagens textuais, resultantes da harmonização de diversos recursos expressivos. Aqueles contribuem não só para a denúncia do provincianismo, que caracteriza, numa perspetiva ampliada pelo monóculo do autor, a sociedade lisboeta oitocentista, mas também para a revelação de outros “vícios” sociais (e mesmo morais): a precariedade das construções, a falta de higiene, o compadrio, a ausência de ética profissional… Enfim, a tal “sensaboria de rachar”, expressão com que dois brasileiros descrevem estas corridas em Lisboa.

Para já, meus caros alunos, fiquemos por aqui, que a lição já vai longa!

Bom trabalho!

IA