A Poesia e a Pintura de mãos dadas

cesarioeamadeo

Os alunos foram desafiados a encontrar aspetos comuns, quer a nível temático quer a nível formal, entre a poesia de um e a pintura do outro. Esta é parte da leitura que a Catarina fez de versos do poema “A Débil”, quando “casados” com dois quadros de Amadeo de Souza-Cardoso, identificados no fim do artigo.

IA

A Débil

“Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!” disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;  
E invejava, — talvez que não o suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

(…)

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.” 

Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’

“Cesário descreve a bela mulher psicologicamente como sendo frágil, natural, recolhida, pura… e, fisicamente, como sendo jovem, loura, dona de um corpo alegre e de uma cintura estreita, adorável, elegante… Porém, o sujeito poético sente-se “feio, sólido e leal”.

Ele “pinta” ainda os espaços físicos onde se encontram, utilizando uma caracterização disfórica e negativa – “…à mesa dum café devasso, (…) Nesta Babel tão velha e corruptora” -, permitindo o contraste entre a mulher frágil e bela e o local fechado e obscuro (…). A jovem “pintada” nos versos de Cesário, parece uma combinação entre a mulher do campo e a da cidade, respetivamente, em relação ao retrato que o eu poético faz dela e ao espaço em que esta se encontra. O poeta-pintor utiliza imagens visuais, um vocabulário preciso e a adjetivação para enriquecer as suas descrições. Afasta-se do lirismo romântico através dessa objetividade. Os dois quadros adequam-se, na minha opinião, ao retrato do sujeito poético e a esta mulher, devido às cores vivas e à solidez das formas.”

Catarina

Quadros de Amadeo de Souza_cardoso: Cabeça (óleo sobre cartão) e Canção Popular e o Pássaro do Brasil (óleo sobre tela) 
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Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

2 opiniões sobre “A Poesia e a Pintura de mãos dadas”

  1. Muitos parabéns: à professora pelo desafio e pelo belo cartaz que construiu e partilhou.
    À aluna por ter escrito este belíssimo texto que revela uma boa compreensão da obra de dois grandes artistas: Cesário e Amadeo.
    Continuem a interligar gostos, sensações, saberes com os quais todos podem aprender mais e melhor.
    Um beijinho
    Dolores Garrido

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  2. Obrigada, Dolores, pelo teu comentário! A Catarina é uma jovem dotada de grande sensibilidade, por isso este “cruzamento” da poesia de Cesário com a pintura de Amadeo não me surpreendeu, porque fizesse o que ela fizesse com o que encontrasse dos dois seria bem feito.
    Espero que os exames que ela agora terá de realizar lhe corram bem, assim como a todos os seus colegas, os “anjinhos” deste Paraíso, que, espero, continue a ser dinamizado por/com/para eles!
    beijinho,
    IA

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