Nobel da literatura: outros cantautores possíveis…

Em português, do outro lado do Atlântico:

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque, Construção

Gosto muito desta canção, cujo poema também é uma construção que se vai reformulando, refazendo com pedaços de versos (estilhaços do corpo que o poema também é) já cantados…

Em português, do lado de cá:

A principio é simples, anda-se sozinho

Passa-se nas ruas bem devagarinho

Está-se bem no silêncio e no burburinho

Bebe-se as certezas num copo de vinho

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

 

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo

Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo

Diz-se do passado, que está moribundo

Bebe-se o alento num copo sem fundo

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

 

E é então que amigos nos oferecem leito

Entra-se cansado e sai-se refeito

Luta-se por tudo o que se leva a peito

Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

 

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja

Olha-se para dentro e já pouco sobeja

Pede-se o descanso, por curto que seja

Apagam-se dúvidas num mar de cerveja

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

 

E enfim duma escolha faz-se um desafio

Enfrenta-se a vida de fio a pavio

Navega-se sem mar, sem vela ou navio

Bebe-se a coragem até dum copo vazio

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

 

E entretanto o tempo fez cinza da brasa

E outra maré cheia virá da maré vaza

Nasce um novo dia e no braço outra asa

Brinda-se aos amores com o vinho da casa

E vem-nos à memória uma frase batida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

 

Sérgio Godinho, O primeiro dia

É-me difícil escolher uma canção de Godinho! São tantas aquelas de que gosto… Mas, vem-me/nos tantas vezes à memória esta frase batida!  Até um dia…

(Não sei se a tradução para a língua inglesa, presente no videoclip, está correta! Esta versão está aqui só porque é ao vivo.)

 IA

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Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

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