Pessoa e a nostalgia da infância

A recordação da infância funciona na poesia do ortónimo como uma forma de evasão ao sofrimento, como fuga à “dor de pensar”. É uma estratégia efémera, é certo, porque o presente e a realidade acabam por se  impor ao “eu” que, por instantes, se fragmentou.

São vários os elementos textuais que evocam essa infância passada, período feliz, (real ou virtual) do “eu” (da humanidade, também). Essa felicidade justifica-se, porque esta fase da vida está mais próxima da nossa condição de ser natural (mais animal), porque mais próxima do inconsciente, do instinto (como acontece com o gato), porque mais emotiva (como acontece com a ceifeira) porque é a época do “faz de conta”, da fantasia e, também por isso, mais próxima do sonho. Porque também é símbolo do paraíso perdido.

Segue uma pequena lista de elementos textuais que, em vários poemas, evocam a infância perdida.

jardim, flores, ama, sonho, sonhar, histórias, contos, fadas, azul, primavera, canção, princesa, cantar, brincar, coração

Elencam-se alguns poemas que ilustram esta temática.

Boas leituras!

IA

Maravilha-te, memória!

Maravilha-te, memória!

Lembras o que nunca foi,

E a perda daquela história

Mais que uma perda me dói.

 

Meus contos de fadas meus —

Rasgaram-lhe a última folha…

Meus cansaços são ateus

Dos deuses da minha escolha…

 

Mas tu, memória, condizes

Com o que nunca existiu…

Torna-me aos dias felizes

E deixa chorar quem riu. 

21-8-1930
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).  - 162.
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Henri Matisse, Open window at Collioure

Vejo passar os barcos pelo mar

Vejo passar os barcos pelo mar,

As velas, como asas do que vejo

Trazem-me um vago e íntimo desejo

De ser quem fui, sem eu saber que foi.

Por isso tudo lembra o meu ser lar,

E, porque o lembra, quanto sou me dói.

 

1932

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  - 112.
Maria Vilaça

Quando era criança

Quando era criança

Vivi, sem saber,

Só para hoje ter

Aquela lembrança.

 

E hoje que sinto

Aquilo que fui.

Minha vida flui,

Feita do que minto.

 

Mas nesta prisão,

Livro único, leio

O sorriso alheio

De quem fui então. 

2-10-1933
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 187.
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Vincent Van Gogh

Como a Noite é Longa!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim…
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p’r’ao pé de mim…

Amei tanta coisa…
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou… Já não sei…
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei…

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,

Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

 
4-11-1914
Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43.
 

Quando as crianças brincam

Quando as crianças brincam

E eu as oiço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

 

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

 

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração. 

5-9-1933
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 166.
Ivan Cruz, Crianças na Praça

Ah, quero as relvas e as crianças!

Ah, quero as relvas e as crianças!

Quero o coreto com a banda!

Quero os brinquedos e as danças —

A corda com que a alma anda.

 

Quero ver todas brincar

Num jardim onde se passa,

Para ver se posso achar

Onde está minha desgraça.

 

Ah, mas minha desgraça está

Em eu poder querer isto —

Poder desejar o que há.

[…]

23-8-1934
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  - 164.
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Pessoa e a dor de pensar

Mais uma vez, o eu que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente essa “loucura que vem / de querer compreender”.

E é assim que Pessoa, à semelhança do vento que vive preso no ar, vai vivendo a sua dor preso em tanto pensar…

Fúria nas trevas o vento 

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar.

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar.

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

Amadeo de Souza-Cardoso: paisagens a intervalar

Eis um dos artistas, que também fez parte da geração de Orpheu, neste excerto retirado da Wikipédia

«Pertencente à primeira geração de pintores modernistas portugueses, Amadeo de Souza-Cardoso destaca-se entre todos eles pela qualidade excecional da sua obra e pelo diálogo que estabeleceu com as vanguardas históricas do início do século  XX. “O artista desenvolveu, entre Paris e Manhufe, a mais séria possibilidade de arte moderna em Portugal num diálogo internacional, intenso mas pouco conhecido, com os artistas do seu tempo.” A sua pintura articula-se de modo aberto com movimentos como o cubismo o futurismo ou o expressionismo, atingindo em muitos momentos – e de modo sustentado na produção dos últimos anos –, um nível em tudo equiparável à produção de topo da arte internacional sua contemporânea.

A morte aos 30 anos de idade irá ditar o fim abrupto de uma obra pictórica em plena maturidade e de uma carreira internacional promissora mas ainda em fase de afirmação. Amadeo ficaria longamente esquecido, dentro e, sobretudo, fora de Portugal.»

 Brook House (1913)

Lanscape

Stronghold (1912)

Procissão de Corpus Christi de 1913

Paisagem de 1912 

Uma boa semana para todos!

IA

Antero de Quental, (n)os sonetos

Eis aqui esboçadas as principais linhas de leitura dos sonetos anterianos estudados, organizadas de acordo com os tópicos de conteúdo estipulados no Programa de Português do Ensino Secundário.

1. angústia existencial  (disforia): 

– pessimismo;
– realidade traumatizante dominada pelo sofrimento e pela injustiça;
– conflito razão/sentimento;
– inquietação espiritual;
– consciência da imperfeição humana…

2. configurações do Ideal – perfeição e plenitude das realizações imaginárias ou reais (euforia):

– busca de um sentido para a Vida;
– ânsia do Absoluto;
– busca do Ideal, do Bem, da Felicidade;
– preocupação com o Bem, a Verdade, a Justiça…

3. Linguagem, estilo e estrutura:

‒ o discurso conceptual;
‒ o soneto;
‒ recursos expressivos: a apóstrofe, a metáfora, a personificação.  

Concluindo:

Há nos sonetos de Antero uma certa para-teatralidade, suportada também pela presença de um “tu” (“E tu entendes o meu mal sem nome, / A febre de Ideal, que me consome, /Tu só, Génio da noite, e mais ninguém!), com o qual é possível um diálogo constante, nem que esse “tu” seja um mero desdobramento do “eu” (“Dorme o teu sono, coração liberto”).

A busca do Ideal assume-se como demanda essencial de um “eu lírico”, que se enuncia num plano poético encarado como real (Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração) ou imaginário (Sonho que sou um cavaleiro andante.), e que sucumbe, solitário, perante uma realidade prepotente, opressora, esmagadora, da qual não consegue libertar-se (“Mas dentro encontro só, cheio de dor, / Silêncio e escuridão – e nada mais!; “Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita.).

Compreende-se assim que a morte (“Dorme na mão de Deus eternamente!), o sonho (Sonho-me às vezes rei, n’alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente  /E a lua cheia sobre as águas brilha…) e o estoicismo (Para além do Universo luminoso (…) A onda desse mar tumultuoso / Vem ali expirar, esmaecida…), sejam perspetivados como as únicas alternativas possíveis de fuga a essa realidade angustiante.

Bom trabalho!

IA