Pessoa e a dor de pensar

Mais uma vez, o eu que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente essa “loucura que vem / de querer compreender”.

E é assim que Pessoa, à semelhança do vento que vive preso no ar, vai vivendo a sua dor preso em tanto pensar…

Fúria nas trevas o vento 

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar.

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar.

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

3 opiniões sobre “Pessoa e a dor de pensar”

  1. Outra belíssima escolha, Isaura, como sempre.
    Fiquei a pensar que o não pensar também cansa e causa dor, a nós e aos outros. Como tal, vale(rá) a pena este cansaço, ainda que tantas vezes acompanhado de dor.

    Vítor, quando pões a Carruagem 23 de novo a andar?
    Beijinho
    Dolores

    Gostar

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