Variações da mesma ode e mais odes

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando [1]

 

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando

Os teus estéreis, trabalhosos dias

        Em feixes de hirta lenha,

        Cumpres a tua vida?

A tua lenha é só peso que levas

Para onde não tens fogo que aquecer-te,

        Nem levam peso ao colo

        As sombras que seremos.

Aprende calma com o céu havido

E com o pranto a ter contínuo curso.

        Não sigas a clepsidra

        Que conta a hora dos outros.

Flaco Resultado de imagem para horácio Flaco

É o apelido de Horácio, Horácio Quinto Flaco. Filósofo e poeta lírico e satírico romano. É uma das mais conhecidas e ilustres figuras da Roma Antiga. Ricardo Reis diz ser seu discípulo. 

 

11-7-1914, Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  – 184.

Clepsidra Resultado de imagem para clepsidra

Também denominada relógio de água, foi um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo. Trata-se de um dispositivo movido a água.

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]
                                In Flaccum

 

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
        Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres 
Põe mais vista em notares que tens flores
        No teu jardim (…)

s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994. – 46a.

Ceres

Resultado de imagem para deusa Ceres

Ceres equivale, na mitologia romana, à deusa grega, Deméter. Era a deusa das plantas que brotam (particularmente dos grãos) e do amor maternal. Diz-se que foi adotada pelos romanos em 496 a.C. durante uma fome devastadora, quando os livros Sibilinos avisaram para que se adotasse a deusa grega Deméter.

Era celebrada por mulheres em rituais secretos no festival de Ambarvália, em Maio. Existia um templo dedicado a esta deusa no monte Aventino em Roma. A veneração de Ceres ficou associada às classes plebeias, que dominavam o comércio de cereais. Sabe-se muito pouco sobre os rituais que lhe eram dedicados. No entanto, um dos poucos costumes que ficou registado consistia em apertar ligas nas caudas das raposas, que eram largadas no Circo Máximo.

Antes de nós nos mesmos arvoredos

 

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inultilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

8-10-1914 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 52.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Em qualquer hora pode suceder-nos       

         O que nos tudo mude.

Fora do conhecido e estranho o passo

Que próprio damos. Graves numes guardam

        As lindas do que é uso.

Não somos deuses; cegos, receemos,

E a parca dada vida anteponhamos

        À novidade, abismo.

s.d. 
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 159. 1ª publ. in Atena, nº 1. Lisboa: Out. 1924.

A palidez do dia é levemente dourada.

A palidez do dia é levemente dourada.

O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas

                Dos troncos de ramos secos.

                O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiquíssima da minha

Crença, consolado só por pensar nos deuses,

                Aqueço-me trémulo

                A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole

0 que alumiava os passos lentos e graves

                De Aristóteles falando.

                Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre

Tendo para os deuses uma atitude também de deus,

                Sereno e vendo a vida

                À distância a que está.

19-6-1914 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).   - 28.

Parténon

Resultado de imagem para Parténon

O Parténon, templo dedicado à deusa grega Atena, é o mais conhecido dos edifícios remanescentes da Grécia Antiga e foi ornado com o melhor da arquitetura grega. As suas esculturas decorativas são consideradas um dos pontos altos da arte grega.

 Acrópole de Atenas 

É a mais conhecida e famosa Resultado de imagem para acrópole de atenas acrópole do mundo. Embora existam muitas outras acrópoles na Grécia, o significado da Acrópole de Atenas é tal que é vulgarmente conhecida como “A Acrópole”. É uma colina rochosa de topo plano que se ergue 150 metros acima do nível do mar, em Atenas, capital da Grécia, e abriga algumas das mais famosas edificações do mundo antigo, como o Parténon.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

E deseja o destino que deseja;

                Nem cumpre o que deseja,

                Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe, e ali ficamos;

                Que a Sorte nos fez postos

                Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

Do que nos coube que de que nos coube.

                Cumpramos o que somos.

                Nada mais nos é dado.

29-7-1923 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  - 171.
 

 

Anúncios

Carpe Diem

No Clube dos Poetas Mortos

 

Saudades deste filme de Peter Weir, de 1990!

Ricardo Reis, o heterónimo mais erudito de Pessoa, só não aprovaria o conselho “Façam das vossas vidas uma coisa extraordinária!”.

Afinal, o “eu” nas odes de Reis é um simples observador do rio que caminha para o mar, um mero espectador da vida que passa. Nunca é ator. Nunca se assume como alguém que busca protagonismo. Mas é sempre aquele que aceita o que o Fatum lhe reserva.

E que cada um de nós encontre o seu verso, como sugere Walt Whitman, de quem falaremos quando estudarmos a poesia do sr. engenheiro Álvaro de Campos.

Boa semana!

IA

Ricardo Reis, o poeta “clássico” e neopagão

Eis aqui algumas características da poesia de Ricardo Reis, pelo olhar atento de dois críticos literários.

«Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Tentaremos sintetizá-la.

Cada qual de nós — opina o Poeta — deve viver a sua própria vida, isolando-se dos outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e lhe apraz. Não deve procurar os prazeres violentos, e não deve fugir às sensações dolorosas que não sejam extremas.

Buscando o mínimo de dor […], o homem deve procurar sobretudo a calma, a tranquilidade, abstendo-se do esforço e da actividade útil.

[…]

Devemos buscar dar-nos a ilusão da calma, da liberdade e da felicidade, coisas inatingíveis porque, quanto à liberdade, os próprios deuses — sobre quem pesa o Fado — a não têm; quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado da sua fé e do meio onde a sua alma devia viver; e quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis, profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer.

Tudo isto se apoia num fenómeno psicológico interessante: numa crença real [?] e verdadeira nos deuses da Grécia antiga, admitindo Cristo […] como um deus a mais, mas mais nada — ideia esta de acordo com o paganismo e talvez em parte inspirada pela ideia (puramente pagã) de Alberto Caeiro de que o Menino Jesus era «o deus que faltava.»

1915? 
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.  - 386.

 

«Os temas da sua poesia são aqueles (ou mais propriamente alguns daqueles) que habitualmente encontramos no lirismo clássico, nomeadamente o carpe diem, a aurea mediocritas ou a tirania do fatum. Doutrinariamente, apresenta-se ainda com um “pagão da decadência“, que procura conciliar o culto epicurista do prazer com a renúncia estoica, tendo consciência de que a renúncia aos bens materiais, o sábio usufruto dos pequenos prazeres e a aceitação da morte como fim natural da existência são o caminho certo para fugir à infelicidade»

António Apolinário Lourenço, Fernando Pessoa, Coimbra, Edições 70, 2009, pp. 57-58 (com supressões)

Eis, agora, alguns conceitos fundamentais para melhor perceber o heterónimo pessoano mais erudito.

Epicurismo –  é o sistema filosófico (criado por Epicuro), que defende a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo (busca da felicidade relativa), o que implica:

–   a moderação nos prazeres;

–  a fuga à dor;

– estados de ataraxia (tranquilidade capaz de evitar a perturbação);

–  a ausência da paixão.

 

Carpe Diem  – é uma frase de um poema de Horácio que pode ser traduzida por “Aproveite (ou Colha) o dia!”.  É  um caminho possível da felicidade, considerada o prazer (moderado) do momento, alcançável pela

–  indiferença à perturbação;

–  não cedência aos impulsos dos instintos;

–  procura da calma ou, pelo menos, pela criação da sua ilusão.

Atitude estoica – considera ser possível encontrar a felicidade, desde que se viva em conformidade com as leis do destino (Fatum) que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. Destacam-se assim os seguintes aspetos:

–  aceitação das leis do destino;

–  indiferença face às paixões e à dor;

–  autodisciplina.

Boas leituras!

IA

Intervalando com um mar imenso…

Já que estamos a estudar o poeta da natureza, que tal darmos um saltinho ao mar?

Alberto Caeiro gostaria deste La Mer. A sensação visual impera ali, toda… E a comunhão com a imensidão desse elemento natural, que embalou o coração do “eu” na canção, pode aproximar-se à comunhão sentida nos famosos versos “Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz.”.

En français, numa versão “jazzística”, numa voz roucamente feminina… Diretamente do Canadá, Chantal Chamberland:

 

La Mer 

La mer
Qu’on voit danser
le long des golfes clairs
A des reflets d’argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie

La mer
Au ciel d’été
confond ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer
bergère d’azur
Infinie

Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées

La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d’une chanson d’amour
La mer
A bercé mon coeur
Pour la vie

Uma excelente semana!

IA

Breve questionário sobre Alberto Caeiro e a sua poesia

Meus caros alunos, está na hora de testar os vossos conhecimentos a propósito deste heterónimo pessoano. A atividade será corrigida em aula.

Bom trabalho!

IA

Assinale cada uma das afirmações como verdadeiras ou falsas, tendo em conta o estudo feito sobre a poesia de Alberto Caeiro.

  1. Caeiro é o heterónimo pessoano mais instruído. ___
  2. Alberto Caeiro é o poeta da Natureza. ___
  3. Este heterónimo tem tendências neopagãs. ___
  4. Caeiro é considerado o mestre só dos heterónimos. ___
  5. Caeiro apresenta-se como um mero guardador de rebanhos, ou seja, de sensações, que vê de forma objetiva e natural a realidade circundante. ___
  6. A Natureza, para Caeiro, está em constante renovação. ___
  7. Caeiro utiliza uma linguagem simples, coloquial, visível no vocabulário erudito e nas construções frásicas complexas. ___
  8. Caeiro é sensacionista porque privilegia aquilo que capta pelas sensações. ___
  9. A realidade é captada pelo recurso à sensação visual, a única que interessa a Caeiro. ___
  10. O verdadeiro sensacionismo resulta da supremacia das sensações oferecidas pelos órgãos sensoriais. ___
  11. Caeiro vive no presente, recusando o passado e o futuro, recorrendo também por isso, a nível estilístico, a aforismos, ao presente do indicativo e ao imperativo. ___
  12. Caeiro rejeita o pensamento e vive pelas sensações. ___
  13. “Pensar incomoda como andar à chuva” significa que o pensamento gera mal-estar, infelicidade. ___
  14. Caeiro aceita calmamente a morte pois perspetiva-a como um acontecimento natural. ___
  15. Caeiro foi o mestre do ortónimo e dos outros heterónimos. ___
  16. Os versos “Eu não tenho filosofia, tenho sentidos” e “Pensar é não compreender” confirmam o primado dos sentidos e o seu caráter antimetafísico. ___
  17. A apologia da simplicidade da vida rural é uma atitude valorizada por este poeta bucólico. ___
  18. O autor de “O guardador de rebanhos” é um autodidata, que adota uma vivência simples e concreta. ___
  19. O uso do pensamento traz felicidade a este heterónimo. ___
elaborado a partir de SENTIDOS 12, "Questões de aula", ASA Editores

 

Alberto Caeiro – poemas (possíveis) para uma oral feliz

Uma breve e excelente análise deste heterónimo pessoano pelo olhar sensível de um jovem brasileiro…

II

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás… 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem… 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras… 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo… 
Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo.  Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender… 
O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos)                    
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… 
    
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe porque ama, nem o que é amar … 
    
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar…

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
A vermelho no poema destaca-se a passagem lida no vídeo clip.

Retomo, agora, um clip que já mora neste nosso Bem-Vindo ao Paraíso, há algum tempo.

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

In Poemas inconjuntos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

 E deixo mais estes poemas.

Tenham um bom domingo!

IA

«Olá, guardador de rebanhos, 
Aí à beira da estrada, 
Que te diz o vento que passa?»

«Que é vento, e que passa, 
E que já passou antes, 
E que passará depois. 
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.   
Fala-me de muitas outras cousas.   
De memórias e de saudades  
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento. 
O vento só fala do vento. 
O que lhe ouviste foi mentira, 
E a mentira está em ti.»

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

III 

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

XL

Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor.

 

In O Guardador de Rebanhos
 In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

 

Paul Gauguin, Haere Mai, 1891. Oil on burlap, 28 1/2 x 36 inches (72.4 x 91.4 cm)
Paul Gauguin, Haere Mai, 1891.

XLI 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa… 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão… 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos…

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir
(Enquanto os olhos e ouvidos se não fecham) …

 

In O Guardador de Rebanhos In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 200

De longe vejo passar no rio um navio…
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimo desolação com isto…
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença de metafísica
Rio abaixo até à realidade do mar.

In Poemas Inconjuntos  
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

“… e o sol, que peca / Só quando, em vez de criar, seca.”

É o que tem acontecido nestes últimos tempos. Gosto muito de dias quentes, de sol bem aberto no azul, mas este, de facto, já “peca”!…

Fiquemos com o poema “Liberdade” na íntegra e com um breve desafio aos alunos do 12.º ano.

Descobrir no poema versos que apontam para:

  • as temáticas a) “dor de pensar” e b) “nostalgia da infância”;

  • a emergência/relevância do Sonho;

  • a valorização da natureza (aspeto relevante na poesia do heterónimo Alberto Caeiro, que iremos estudar nas próximas aulas);

  • a valorização da arte;

  • o caráter interventivo da poesia de Pessoa, com uma (possível) crítica (indireta) ao então presidente do  Conselho de Ministros, Oliveira Salazar.

LIBERDADE

                (Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa…

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

 

s. d. 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 244. 1ª publ. in Seara Nova , nº 526. Coimbra: 11-9-1937.

Bom feriado!

IA