Ricardo Reis, o poeta “clássico” e neopagão

Eis aqui algumas características da poesia de Ricardo Reis, pelo olhar atento de dois críticos literários.

«Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Tentaremos sintetizá-la.

Cada qual de nós — opina o Poeta — deve viver a sua própria vida, isolando-se dos outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e lhe apraz. Não deve procurar os prazeres violentos, e não deve fugir às sensações dolorosas que não sejam extremas.

Buscando o mínimo de dor […], o homem deve procurar sobretudo a calma, a tranquilidade, abstendo-se do esforço e da actividade útil.

[…]

Devemos buscar dar-nos a ilusão da calma, da liberdade e da felicidade, coisas inatingíveis porque, quanto à liberdade, os próprios deuses — sobre quem pesa o Fado — a não têm; quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado da sua fé e do meio onde a sua alma devia viver; e quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis, profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer.

Tudo isto se apoia num fenómeno psicológico interessante: numa crença real [?] e verdadeira nos deuses da Grécia antiga, admitindo Cristo […] como um deus a mais, mas mais nada — ideia esta de acordo com o paganismo e talvez em parte inspirada pela ideia (puramente pagã) de Alberto Caeiro de que o Menino Jesus era «o deus que faltava.»

1915? 
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.  - 386.

 

«Os temas da sua poesia são aqueles (ou mais propriamente alguns daqueles) que habitualmente encontramos no lirismo clássico, nomeadamente o carpe diem, a aurea mediocritas ou a tirania do fatum. Doutrinariamente, apresenta-se ainda com um “pagão da decadência“, que procura conciliar o culto epicurista do prazer com a renúncia estoica, tendo consciência de que a renúncia aos bens materiais, o sábio usufruto dos pequenos prazeres e a aceitação da morte como fim natural da existência são o caminho certo para fugir à infelicidade»

António Apolinário Lourenço, Fernando Pessoa, Coimbra, Edições 70, 2009, pp. 57-58 (com supressões)

Eis, agora, alguns conceitos fundamentais para melhor perceber o heterónimo pessoano mais erudito.

Epicurismo –  é o sistema filosófico (criado por Epicuro), que defende a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo (busca da felicidade relativa), o que implica:

–   a moderação nos prazeres;

–  a fuga à dor;

– estados de ataraxia (tranquilidade capaz de evitar a perturbação);

–  a ausência da paixão.

 

Carpe Diem  – é uma frase de um poema de Horácio que pode ser traduzida por “Aproveite (ou Colha) o dia!”.  É  um caminho possível da felicidade, considerada o prazer (moderado) do momento, alcançável pela

–  indiferença à perturbação;

–  não cedência aos impulsos dos instintos;

–  procura da calma ou, pelo menos, pela criação da sua ilusão.

Atitude estoica – considera ser possível encontrar a felicidade, desde que se viva em conformidade com as leis do destino (Fatum) que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. Destacam-se assim os seguintes aspetos:

–  aceitação das leis do destino;

–  indiferença face às paixões e à dor;

–  autodisciplina.

Boas leituras!

IA

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Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

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