Postal de Natal 2017

A todos um Santo Natal e um 2018 recheado de “coisinhas” todas elas muito boas!

E bem acompanhado de música e de dois poemas: um condimentado de ironia, ao gosto do “nosso”  Pessoa,  e outro bem crítico, pelo olhar de uma poetisa que no nome tem Natal, Natália Correia.

IA

 

Chove. É Dia de Natal

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro” 

Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas 
se espalhava nos móveis e tu vinhas 
solstício de mel pelas escadas 
de um sentimento com nozes e com pinhas, 

menino eras de lenha e crepitavas 
porque do fogo o nome antigo tinhas 
e em sua eternidade colocavas 
o que a infância pedia às andorinhas. 

Depois nas folhas secas te envolvias 
de trezentos e muitos lerdos dias 
e eras um sol na sombra flagelado. 

O fel que por nós bebes te liberta 
e no manso natal que te conserta 
só tu ficaste a ti acostumado. 

Natália Correia, in “O Dilúvio e a Pomba”

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À espera do Natal, com…

Uma cover bem divertida:

E a versão original:

I don’t want a lot for Christmas
There is just one thing I need
I don’t care about the presents
Underneath the Christmas tree
I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true oh
All I want for Christmas is you

I don’t want a lot for Christmas
There is just one thing I need, and I
Don’t care about the presents
Underneath the Christmas tree
I don’t need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won’t make me happy
With a toy on Christmas day

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you

I won’t ask for much this Christmas
I won’t even wish for snow, and I
I just wanna keep on waiting
Underneath the mistletoe

I won’t make a list and send it
To the North Pole for Saint Nick
I won’t even stay awake
To hear those magic reindeer click

‘Cause I just want you here tonight
Holding on to me so tight
What more can I do
Oh, Baby all I want for Christmas is you

All the lights are shining
So brightly everywhere
And the sound of children’s
Laughter fills the air

And everyone is singing
I hear those sleigh bells ringing
Santa won’t you bring me
The one I really need
Won’t you please bring my baby to me quickly

I don’t want a lot for Christmas
This is all I’m asking for
I just wanna see my baby
Standing right outside my door

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
Baby all I want for Christmas is you

All I want for Christmas is you, baby!

Divirtam-se!

IA

Álvaro de Campos – poemas para uma oral feliz (2)

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Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

 

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

 

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

 

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

 

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

 

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas).

 

21-10-1935, 
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 84. 1ª publ. in Acção, nº 41. Lisboa: 6-3-1937.
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                                                                                    Paul Klee

Ver as coisas até ao fundo…

Ver as coisas até ao fundo…

E se as coisas não tiverem fundo?

 

Ah, que bela a superfície!

Talvez a superfície seja a essência

E o mais que a superfície seja o mais que tudo

E o mais que tudo não é nada.

 

Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,

És a própria alma que reflectes

 

s.d. 
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.  - 60.

Tenham boas leituras!

IA

Álvaro de Campos, o poeta da modernidade

Álvaro Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.

“Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra a civilização industrial e mecânica, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento (fase sensacionista, futurista), como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adotando sempre o ponto de vista do homem da cidade (fase intimista, pessimista).

A fase da euforia: sensacionista/futurista

Campos, na sua fase sensacionista/futurista, é o “filho indisciplinado da sensação e, para ele, a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte.

Este heterónimo aprende com o mestre Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a «sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das perceções conforme as sente ou, como ele próprio afirma, “sentir tudo de todas as maneiras”.

Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é configurado “biograficamente” por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso.

Cantor do mundo modernoo poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. Por isso, o eu lírico que vive nos seus poemas:

– canta a civilização industrial:

  • celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna;

  • apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina;

  • exalta o progresso técnico e a velocidade ;

– valoriza os sentidos;

– procura a totalização das sensações: sente a complexidade e a dinâmica da vida moderna e, por isso, procura sentir a violência e a força de todas as sensações;

– tenta integrar e unificar tudo o que tem (presente) ou teve existência (passado) ou possibilidade de existir (futuro);

– exprime a energia ou a força que se manifesta na vida;

– introduz na linguagem poética a terminologia do mundo mecânico citadino e cosmopolita.

A fase da disforia – Intimista/Pessimista

Nela encontramos um “eu” ensimesmado, angustiado e incompreendido.

Como temas, destacam-se:

– a inadaptação à realidade:

  • condição humana partilhada entre o nada da realidade e o tudo dos sonhos (“Tabacaria”);

  • a frustração total: incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento e o mundo exterior e interior;

  • o cansaço, a angústia existencial e a (auto)-ironia;

  • a solidão interior.

– a dor de pensar;

– a nostalgia da infância.

elaborado a partir de http://www.prof2000.pt/users/jsafonso/Port/campos.htm

Ricardo Reis em canção

Depois da brilhante apresentação oral da Lídia (mas não é a do Reis!) e da Mafalda, do 12.º 10, temos o Diogo Piçarra, com o mesmo poema, uma ode da autoria do heterónimo pessoano mais erudito, poeta clássico e neopagão, o Sr. Dr. Ricardo Reis!

Pela rima, nem parece poema dele, pois não?…

Sim, sei bem

 

Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

    Deixem-me me crer

O que nunca poderei ser.

8-7-1931 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  - 133.

30 de novembro: aniversário da morte de Fernando Pessoa

Deixo aqui excertos de um poema assinado pelo heterónimo Álvaro de Campos, que é considerado por especialistas como sendo um dos 100 melhores poemas produzidos pela Humanidade.

Pertence à fase posterior à sensacionista/futurista, aquela fase em que o engenheiro naval mais se aproxima do sentir do seu criador.

É uma espécie de Campos com Pessoa dentro.

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Tabacaria

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

[…]

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível.

[…]

Essência musical dos meus versos inúteis,  
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,  
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,  
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,   
Como um tapete em que um bêbado tropeça  
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.  
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei.  
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.  
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.  
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,  
E a língua em que foram escritos os versos.  
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.  
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,  
Sempre uma coisa defronte da outra,  
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,   
Sempre o impossível tão estúpido como o real,  
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),   
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.   
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,   
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los  
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.   
Sigo o fumo como uma rota própria,   
E gozo, num momento sensitivo e competente,   
A libertação de todas as especulações  
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

 15/1/1928, Álvaro de Campos