“Sermão de Santo António”, vindo diretamente da Carruagem 23

Meus caros alunos, é de visitar este Exórdio, in loco…

http://carruagem23.blogspot.com/2019/10/payassu-o-verbo-do-pai-grande.html#comment-form

Com um agradecimento muito especial ao prof. Vítor Oliveira, autor do registo fílmico.

Boas audições!

IA

Os Media: vantagens e desvantagens (2)

Como explicar a Europa?

Eis uma espécie de alegoria, não de teor religioso, (talvez seja mais uma paródia), retirada do Expresso Curto do dia 18 de outubro, da autoria do jornalista Ricardo Marques. Este parte, à semelhança de padre António Vieira, de um conceito predicável – não de uma citação de Cristo, mas de uma do escritor oitocentista, Eça de Queirós.

Até que ponto cumpre a função informativa dos (Mass) Media? Eis a questão que se impõe!

Balada do nosso bar

“Não falemos mais na Europa. Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia.”

in “Cartas de Inglaterra”, Eça de Queirós

A Europa é um enorme bar.

Antes, e parece que já foi há muito tempo, havia uma série de estabelecimentos na mesma rua, porta sim, porta sim – com zangas e confusões -, até que a malta decidiu juntar tudo e todos no mesmo espaço.

No União Europeia, assim se chama o novo bar, cada um ficou com a sua mesa, mas toda a gente andava por onde queria sem qualquer problema. Entrava-se com algum dinheiro, uns mais do que outros, escolheu-se uma nova moeda e também um gerente, que impunha as regras do sítio. Era bom, porque havia bebida para todos e evitavam-se as cenas de pancadaria à antiga.

Claro que os britânicos se juntaram à festa, e ao bar, mas nunca completamente. Bebiam em copos diferentes, insistiam em pagar na sua moeda antiga e mantiveram sempre aquele ar de que ‘no meu bar antigo é que a cerveja era boa e o gerente era eu e ninguém me chateava’.

Há três anos, numa daquelas febres que costumam ter, decidiram votar se ficavam ou não e ganharam os que queriam sair do bar. A ressaca na manhã seguinte não foi fácil e mais difícil têm sido todos os dias desde então. Andam às turras uns com os outros e eles todos com a gerência, para grande enfado das outras mesas que, resignadas, não veem a hora de tudo estar resolvido e o bar voltar ao que era, mesmo que nunca mais possa ser como foi. Enfim, quem os pode censurar, se até na mesa da polémica já há canais de televisão de notícias ‘Brexit-free’.…

Entre gritaria e zangas, os britânicos lá vão decidindo quem é que se levanta para ir ao balcão discutir com o Bruxelas – é o nome do tipo que manda no bar – os termos em que se vão embora. Afinal, há contas para pagar, cerveja que foi para a mesa, etc., etc… O último, já depois daquela senhora simpática que eles mandaram embora, é um rapaz louro, de cabelo despenteado que, viu-se ontem, parece ter conseguido qualquer coisa que não é má de todo.

A malta das outras mesas e a gerência celebraram, ainda que com o entusiasmo de quem sabe que vai ter uma perna amputada no fim do mês. (…)

O problema é que agora o despenteado tem de voltar à mesa para convencer os amigos – e há um, ou uma, a que chamam Escócia, que já disse que não se quer ir embora do bar, porque gosta do espaço e das pessoas das outras mesas e da cerveja, e que vai arranjar maneira de levar o assunto a votação.

Entre os restantes convivas na mesa do chá cheia de cerveja, há também uns que gritam que não querem saber e que saem dali seja como for e agarrem-me ou… e outros que querem tudo por escrito e certinho. Além, claro, dos que querem ficar, porque também os há. Tudo muito british, of course.

Agora que já temos a sua atenção para aquele que é provavelmente o momento mais difícil da construção europeia, fica este guia com 15 perguntas e outras tantas respostas sobre o Brexit. Resumindo: Londres e Bruxelas chegaram a acordo, mas agora tudo depende do Parlamento Britânico. A votação é já amanhã.

Outras questões pertinentes:

  1. Porquê esta citação de Eça de Queirós?

  2. Porquê a presença de vários links ao longo do texto?

Boa(s) leitura(s) e bom trabalho!

IA

PS: Já agora, um “copinho” de gramática:

  • Retire dos segundo, sexto e último parágrafos advérbios que asseguram a dêixis temporal.

Pessoa e a dor de pensar (2)

À semelhança de artigo já antigo (tem dois anos), surge a sequência de poemas que se apresenta abaixo.

Mais uma vez, o “eu” que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente 

  •  essa“loucura que vem / de querer compreender”;

  • “uma ânsia que não acerta /Com aquilo em que pensa.”;

  • “o pensar, que é (…) vício!”;

  • numa permanente angústia existencial, que se traduz no verso “Eu sofro sem pena a vida.” e no apelo expresso no penúltimo poema: “Quem me lava o coração?”.

Enfim, na impossibilidade de apenas sentir, de ser somente fruto do seu inconsciente, porque este “eu” presente na poesia do ortónimo é, na sua essência, um ser pensante (e não quer deixar de o ser!), ele vive angustiado, dividido, de alma dilacerada, isto é, ele (sobre)vive na DOR DE PENSAR…

Fúria nas trevas o vento

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

ALGA

Paira na noite calma
O silêncio da brisa. . .
Acontece-me à alma
Qualquer coisa imprecisa. . .

Uma porta entreaberta. . .
Um sorriso em descrença. . .
Uma ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sonha, duvida, elevo-a
Até quem me suponho
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho. . .

24-7-1916
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário

É brando o dia, brando o vento 

 

É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu. 
Assim fosse meu pensamento! 
Assim fosse eu, assim fosse eu! 

Mas entre mim e as brandas glórias 
Deste céu limpo e este ar sem mim 
Intervêm sonhos e memórias… 
Ser eu assim, ser eu assim! 

Ah, o mundo é quanto nós trazemos. 
Existe tudo porque existo. 
Há porque vemos. 
E tudo é isto, tudo é isto! 

15-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 154.

A ciência, a ciência, a ciência…

 

A ciência, a ciência, a ciência…

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

[…]

 

4-10-1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 172.

A lavadeira no tanque

 

A lavadeira no tanque

Bate roupa em pedra bem.

Canta porque canta e é triste

Porque canta porque existe;

Por isso é alegre também.

 

Ora se eu alguma vez

Pudesse fazer nos versos

O que a essa roupa ela fez,

Eu perderia talvez

Os meus destinos diversos.

 

Há uma grande unidade

Em, sem pensar nem razão,

E até cantando a metade,

Bater roupa em realidade…

Quem me lava o coração?

15-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 83.

MARINHA

Ditosos a quem acena

Um lenço de despedida!

São felizes: têm pena…

Eu sofro sem pena a vida.

 

Doo-me até onde penso,

E a dor é já de pensar,

Órfão de um sonho suspenso

Pela maré a vazar…

 

E sobe até mim, já farto

De improfícuas agonias,

No cais de onde nunca parto,

A maresia dos dias.

s. d. 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 219.

Boas Leituras!

IA

Lado Esquerdo, de Clã, e a “Dor de Pensar”, de Pessoa

Uma outra abordagem à dicotomia SENTIR/PENSAR, que está na base de parte da produção poética de Pessoa ortónimo, é o que vos proponho hoje.

Uma canção e uma atividade.

  1. Proceda à audição do tema, da autoria da banda musical Clã, e faça o levantamento das diferentes expressões que estão associadas ao “lado esquerdo”.
  2. Caracterize o “outro” lado.
  3. Explicite a relação que esses dois lados do sujeito poético estabelecem com a dicotomia pessoana SENTIR/PENSAR.

Bom trabalho!

IA