Pessoa e a dor de pensar (2)

À semelhança de artigo já antigo (tem dois anos), surge a sequência de poemas que se apresenta abaixo.

Mais uma vez, o “eu” que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente 

  •  essa“loucura que vem / de querer compreender”;

  • “uma ânsia que não acerta /Com aquilo em que pensa.”;

  • “o pensar, que é (…) vício!”;

  • numa permanente angústia existencial, que se traduz no verso “Eu sofro sem pena a vida.” e no apelo expresso no penúltimo poema: “Quem me lava o coração?”.

Enfim, na impossibilidade de apenas sentir, de ser somente fruto do seu inconsciente, porque este “eu” presente na poesia do ortónimo é, na sua essência, um ser pensante (e não quer deixar de o ser!), ele vive angustiado, dividido, de alma dilacerada, isto é, ele (sobre)vive na DOR DE PENSAR…

Fúria nas trevas o vento

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

ALGA

Paira na noite calma
O silêncio da brisa. . .
Acontece-me à alma
Qualquer coisa imprecisa. . .

Uma porta entreaberta. . .
Um sorriso em descrença. . .
Uma ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sonha, duvida, elevo-a
Até quem me suponho
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho. . .

24-7-1916
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário

É brando o dia, brando o vento 

 

É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu. 
Assim fosse meu pensamento! 
Assim fosse eu, assim fosse eu! 

Mas entre mim e as brandas glórias 
Deste céu limpo e este ar sem mim 
Intervêm sonhos e memórias… 
Ser eu assim, ser eu assim! 

Ah, o mundo é quanto nós trazemos. 
Existe tudo porque existo. 
Há porque vemos. 
E tudo é isto, tudo é isto! 

15-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 154.

A ciência, a ciência, a ciência…

 

A ciência, a ciência, a ciência…

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

[…]

 

4-10-1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 172.

A lavadeira no tanque

 

A lavadeira no tanque

Bate roupa em pedra bem.

Canta porque canta e é triste

Porque canta porque existe;

Por isso é alegre também.

 

Ora se eu alguma vez

Pudesse fazer nos versos

O que a essa roupa ela fez,

Eu perderia talvez

Os meus destinos diversos.

 

Há uma grande unidade

Em, sem pensar nem razão,

E até cantando a metade,

Bater roupa em realidade…

Quem me lava o coração?

15-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 83.

MARINHA

Ditosos a quem acena

Um lenço de despedida!

São felizes: têm pena…

Eu sofro sem pena a vida.

 

Doo-me até onde penso,

E a dor é já de pensar,

Órfão de um sonho suspenso

Pela maré a vazar…

 

E sobe até mim, já farto

De improfícuas agonias,

No cais de onde nunca parto,

A maresia dos dias.

s. d. 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 219.

Boas Leituras!

IA

Publicado por

isauraafonseca

Professora do Ensino Secundário - Português

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