Já cá faltava a gramaticazinha!

1 – Acentuação 

Em sequência do desafio linguístico lançado no nosso artigo intitulado “Memorial do Convento”, surge este, em que se pretende não só corrigir os erros de acentuação requeridos e outros mas também sistematizar as regras que foram infringidas. Postamos de novo o videoclipe, para agilizar esta breve exposição.

Na primeira coluna, entre parêntesis, identificam-se os minutos em que esses erros ocorrem.

ERROS DE ACENTUAÇÃO

o n d e   s e   l ê

d e v e   l e r – s e

1)  visionaria (1:30)

2) hipócrisia (2:08)

3) evidência (2:49 e 3:58)

4) críticado (3:34)

5) Aústria (4:40)

 visioria

hipocrisia

evidencia

criticado

Áustria

Nos casos dos erros assinalados em 1) e 3) estamos perante vocábulos da mesma família, cujas fonia e grafia são muito próximas, mas pertencentes a classes de palavras diferentes.

Constata-se assim, no primeiro caso (1), a confusão entre a forma verbal – 1.ª ou 3.ª pessoa do singular do verbo “visionar”, no condicional – e o adjetivo qualificativo que se pretendia. No segundo caso (3), confunde-se o nome abstrato com a 1.ª ou 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “evidenciar”.

É de relembrar que todas as palavras esdrúxulas, ou proparoxítonas  são acentuadas, como é o caso do adjetivo “visionária”.

As palavras graves ou paroxítonas geralmente não são acentuadas, sendo-o apenas em circunstâncias especiais, principalmente, quando a sua última sílaba “sugere” que a palavra seja aguda, ou oxítona. Os vocábulos adequados às situações 2),  3) e 4) são graves e, por isso, não são acentuados.

BREVE REVISÃO: 

1 - As palavras esdrúxulas, ou proparoxítonas são aquelas cuja sílaba tónica é a antepenúltima. 

EX: príncipe

2 - As palavras graves ou paroxítonas são aquelas cuja sílaba tónica  é a penúltima. 

EX: infante

3 – As palavras agudas ou oxítonas são aquelas cuja sílaba tónica é a última.

EX: ponta

É de salientar também que nas situações 2) e 4) o erro ocorre por “contágio” (chamemos-lhe assim), provocado por palavras da mesma família. Tanto “hipócrita” como “crítica” (palavras “parentes” das que apresentam erro) são esdrúxulas, sendo por isso acentuadas, o que faz com que, erradamente, mantenhamos o acento, esquecendo-nos de que a sílaba tónica da palavra que queremos não ocupa a mesma posição.

Para o fim ficou o caso 5), pois a situação parece-nos mais fácil de corrigir. O que é acentuado é o ditongo que corresponde à antepenúltima sílaba da palavra, sendo esta constituída por três sílabas –  “Áus-tri-a” – e não quatro, como sugere a acentuação errada,  o que implicaria a seguinte divisão silábica: “A-ús-tri-a”.

2 –  Maiúscula ou Minúscula e Preposições

O desafio proposto não sugeria a existência de mais erros cometidos pelas autoras do video. No entanto, há dois casos que não podemos negligenciar: um relaciona-se com o uso indevido ou inapropriado de maiúscula em meio de frase; o outro tem a ver com princípios de coesão frásica (erro de construção sintática – seleção  de preposição errada).

Ao minuto 0:58, surge, a propósito de Baltasar Mateus, “papel demiurgo, Deus criador,”. Ora, como todos sabemos, quando Deus é grafado com maiúscula é um nome próprio e designa a entidade divina adorada na tradição judaico-cristã. Como é referido no pequeno filme, uns segundos depois, Baltasar não é Deus, torna-se, sim, nessa trindade terrestre, um deus, ou seja, diviniza-se.

Ao minuto 1:26, acontece o mesmo. Desta vez, é com o vocábulo “degredo”, que aparece erradamente grafado com maiúscula, pois não se trata de nenhum acontecimento reconhecido como especial ou específico, datado, que seja historicamente nomeado como tal.

Ao minuto 2:49, surge o erro de natureza sintática, aquele que é mais penalizado nas provas de exame nacional a Português. Escrevem (e dizem) as autoras “aproximando-se ao padre António Vieira”, quando deveriam dizer “aproximando-se de padre António Vieira”. De facto, “aproximar-se” seleciona a preposição “de” e não “a”! Talvez este erro tenha ocorrido, porque “aproximar-se” aqui é sinónimo de “comparar-se”, verbo este que pode exigir quer a preposição “com” quer “a”.  Enfim, é apenas uma possibilidade que visa explicar esta ocorrência.

E, hoje, por aqui ficamos. Prometemos, contudo, que o próximo artigo deste nosso espaço virtual contemplará atividades de consolidação desta matéria. 

Mas antes… para “desanuviar”:

IA

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