30 de novembro: aniversário da morte de Fernando Pessoa

Deixo aqui excertos de um poema assinado pelo heterónimo Álvaro de Campos, que é considerado por especialistas como sendo um dos 100 melhores poemas produzidos pela Humanidade.

Pertence à fase posterior à sensacionista/futurista, aquela fase em que o engenheiro naval mais se aproxima do sentir do seu criador.

É uma espécie de Campos com Pessoa dentro.

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Tabacaria

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

[…]

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível.

[…]

Essência musical dos meus versos inúteis,  
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,  
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,  
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,   
Como um tapete em que um bêbado tropeça  
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.  
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei.  
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.  
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.  
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,  
E a língua em que foram escritos os versos.  
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.  
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,  
Sempre uma coisa defronte da outra,  
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,   
Sempre o impossível tão estúpido como o real,  
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),   
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.   
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,   
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los  
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.   
Sigo o fumo como uma rota própria,   
E gozo, num momento sensitivo e competente,   
A libertação de todas as especulações  
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

 15/1/1928, Álvaro de Campos

 

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Até sempre, Mr. Cohen!…

I’m traveling light
It’s au revoir
My once so bright, my fallen star
I’m running late, they’ll close the bar
I used to play one mean guitar
I guess I’m just somebody who
Has given up on the me and you
I’m not alone, I’ve met a few
Traveling light like we used to do

Good night, good night, my fallen star
I guess you’re right, you always are
I know you’re right about the blues
You live some life you’d never choose
I’m just a fool, a dreamer who forgot

to dream of the me and you
I’m not alone, I’ve met a few
Traveling light like we used to do

Traveling light
It’s au revoir
My once so bright, my fallen star
I’m running late, they’ll close the bar
I used to play one mean guitar
I guess I’m just somebody who
Has given up on the me and you
I’m not alone, I’ve met a few
Traveling light like we used to do

But if the road leads back to you
Must I forget the things I knew
When I was friends with one or two
Traveling light like we used to do
I’m traveling light

Leonard Cohen, You want it darker, “Traveling Light”

IA

Camões, grande Camões…

Porque hoje é também dia dele… O da partida, porque o da chegada desconhecemos…

Fiquemos então com este requiem de um compositor português setecentista, que assim homenageia Camões, e dois poemas: o primeiro, de Bocage; o segundo, de Torga. A ordem é meramente cronológica.

IA

“Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo
Arrostar co´o sacrílego gigante;
 
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
também carpindo estou, saudoso amante.
 
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
 
Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.”
 
 
Bocage, Rimas

 

 
 

“Nem tenho versos, cedro desmedido
da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
que fico a olhar de longe tal grandeza.


Quem te pode cantar, depois do Canto
que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
chega aos teus pés e como que arrefece.


Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
foste louco a cantar e louco a combater.


Sirva, pois, de poema este respeito
que te devo e confesso,
única nau do sonho insatisfeito
que não teve regresso!”

Miguel Torga, Poemas Ibéricos

Um beijinho muito nosso para a Diana

Fi-lo em setembro de 2013… Hoje, nesta hora difícil, muito difícil para a nossa Diana, deixo-o aqui para ela. 

requiem ao crepúsculo

o sol encolhe-se

na dobra do mar

funde-se na

maresia

num marulhar purpúreo

 

da fímbria

bordada de escuma

estrelas-do-mar

cintilam

e

agitam-se

no céu de areia

 

o sol dorme

embalado nas vagas

a lua

vela esse sono

num sorriso

crescente

 

e

na noite

nós

(em sacrílego apego)

velamos a morte:

não choramos pelo que parte

choramos pela perda que fica…

 

requiem:

ao crepúsculo

num marulhar purpúreo

crescente

choramos pela perda que fica…

 IA