DIA DA MÃE (2019)

Feliz Dia da Mãe!

UM POUCO SÓ DE GOYA: CARTA A MINHA FILHA:

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo, 
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar

o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 
E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio

ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral 

IA

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Páscoa é também transformação

O dia da celebração da Páscoa cristã foi estabelecido por decreto do Primeiro Concílio de Niceia (ano 325 d.C), devendo ocorrer sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio da primavera (no Hemisfério Norte) e do outono (no Hemisfério Sul).

Etimologicamente, o termo Páscoa originou-se a partir do latim Pascha, que, por sua vez, deriva do hebraico Pessach Pesach, que significa “passagem”. Passagem, mudança, transformação significados tão próximos…

É talvez a celebração cristã mais importante pois associa-se à ressurreição de Cristo. Fiquemos, por isso, com este “Panis Angelicus”!

Mas, hoje, devemos celebrar a Páscoa também numa “vocação” ecológica e seguirmos os passos dos japoneses, que, transformando, reciclando, cuidam do planeta e dos seus idosos. Pelo menos, é isso que esta reportagem brasileira nos revela. 

Parece que os suecos fizeram também o mesmo…

E nós por cá por que esperamos?

Tenham uma Páscoa feliz!

IA

Fim do 2.º período com

um dos temas do filme “Cinema Paraíso”

e um poema de António Ramos Rosa.

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in “Volante Verde” 

Fiquem bem!

IA

Feliz Natal 2018

Caros alunos e todos aqueles que visitam este Bem-Vindo ao Paraíso, estimo-vos um Santo Natal!

Deixo-vos com um poema de Natália Correia e música natalícia.

IA

Em Cruz não Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados

da infância. Intérmina, a mãe 
fazia o bolo unido e quente 
da noite na boca das crianças 
acordadas de repente. 

Torres e ovelhas de barro 
que do armário saíam 
para formar a cidade 
onde o menino nascia. 

Menino pronunciado 
como uma palavra vagarosa 
que terminava numa cruz 
e começava numa rosa. 

Natal bordado por tias 
que teciam com seus dedos 
estradas que então havia 
para a capital dos brinquedos. 

E as crianças com a tinta invisível 
do medo de serem futuro 
escreviam os seus pedidos 
no muro que dava para o impossível, 

chão de estrelas onde dançavam 
a sua louca identidade 
de serem no dicionário 
da dor futura: saudade. 

Natália Correia, in ‘O Dilúvio e a Pomba’