A minha casinha: do Norte para Sul…

Quando o marketing vê mais longe…

(Primeiro, foram os Xutos.)

Depois…

A NOS pega na canção, que faz a apologia de parte da ideologia do Estado Novo, e com ela constitui desafio musical. Várias bandas por este país fora reinventam-na. Nenhuma das que se encontram aqui utilizou a estrofe que difundia esses ideais, que induziam os mais desfavorecidos a um conformismo muito útil à elite social, à classe dirigente.

Que bom ter sentido crítico e bom senso!… Para além da criatividade, claro!

É caso para dizer: vá lá, escolham!

Boas viagens!

IA

No Porto…

Em Coimbra…

Em Lisboa…

Em Lisboa, um bocadinho “mais ao lado”…

Em Beja…


E, agora, o tema original e a respetiva letra…

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar
assim num primeiro andar
a contar vindo do céu.

O meu quarto lembra um ninho
e o seu teto é tão baixinho
que eu, ao ir para me deitar,
abro a porta em tom discreto,
digo sempre: «Senhor teto,
por favor deixe-me entrar.»

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.

De manhã salto da cama
e ao som dos pregões de Alfama
trato de me levantar,
porque o sol, meu namorado,
rompe as frestas no telhado
e a sorrir vem-me acordar.

Corro então toda ladina
na casa pequenina,
bem dizendo, eu sou cristão,
“deitar cedo e cedo erguer
dá saúde e faz crescer”
diz o povo e tem razão.

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.

Letra de João Silva Tavares

Anúncios

Verão, verão, onde estás tu?

Com votos de boas férias…

The summer wind
Came blowing in
From across the sea
It lingered there
So warm and fair
To walk with me
All summer long
We sang a song
And strolled on golden sand
Two sweethearts
And the summer wind
Like painted kites
Those days and nights
Went flyin’ by
The world was new
Beneath a blue
Umbrella sky
Then softer than
A piper man
One day it called to you
And I lost you
To the summer wind
The autumn wind
And the winter wind
Have come and gone
And still the days
Those lonely days
Go on and on
And guess who sighs her lullabies
Through nights that never end
My fickle friend
The summer wind
The summer wind
Madeleine Peyroux

E um nostálgico regresso à infância!

Smile though your heart is aching
Smile even though its breaking
When there are clouds in the sky, you’ll get by
If you smile through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining through for you
Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying
You’ll find that life is still worthwhile
If you just smileLight up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying
You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile

That’s the time you must keep on trying
Smile, whats the use of crying
Youll find that life is still worthwhile
If you just smile

Madeleine Peyroux

Bom domingo!

IA

INÊS – Mais do que um intervalo!

A propósito da tradição literária (continuidade ou transgressão) surgem dois poemas: um a estudar na aula, da autoria de Ana Luísa Amaral; outro, de Miguel Torga. O dela entra em rutura com essa tradição, questiona a longevidade/eternidade do amor ou a visão idealizada ou idealizante do mesmo; o dele continua o que Fernão Lopes antecipou e que Camões e António Ferreira esculpiram em género lírico e dramático, respetivamente, abrindo caminho a poetas posteriores, nomeadamente Bocage. 

Mas comecemos com música, em jeito de banda sonora. Em Inglês, porque o amor não escolhe língua. Comeemos com “The Story”, em que se afirma obstinadamente “I was made for you!”. Poderia ter sido Inês a dizê-lo. Ou o seu amado Pedro.

 

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS 

É tarde. Inês é velha. 
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar 
e passa o dia todo em solene toada: 
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro! 
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar 
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

Ana Luísa Amaral

Antes do fim do mundo, despertar

Antes do fim do mundo, despertar,
Sem D. Pedro sentir,
E dizer às donzelas que o luar
E o aceno do amado que há-de vir…

E mostrar-lhes que o amor contrariado
Triunfa até da própria sepultura:
O amante, mais terno e apaixonado,
Ergue a noiva caída à sua altura.

E pedir-lhes, depois fidelidade humana
Ao mito do poeta, à linda Inês…
À eterna Julieta castelhana
Do Romeu português.

Miguel Torga

 

E agora Bocage:

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores;

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.

 

«Mísero esposo,

Desata o pranto,

Que o teu encanto

Já não é teu.

 

«Sua alma pura

Nos Céus se encerra;

Triste da Terra,

Porque a perdeu.

 

«Contra a cruenta

Raiva íerina,

Face divina

Não lhe valeu.

 

«Tem roto o seio

Tesoiro oculto,

Bárbaro insulto

Se lhe atreveu.

 

«De dor e espanto

No carro de oiro

O Númen loiro

Desfaleceu.

 

«Aves sinistras

Aqui piaram

Lobos uivaram,

O chão tremeu.

 

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores:

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.»

Tenham um bom fim de semana!

IA

Postal de Páscoa

Amo o Caminho que Estendes

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões. 
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo 
Se se recorda dos movimentos migratórios 
E das estações. 
Mas não me importo de adoecer no teu colo 
De dormir ao relento entre as tuas mãos. 

Daniel faria, 2012: Poesia [“Dos líquidos”]. Porto: Assírio & Alvim, p. 247.

 

Votos de uma Páscoa Feliz!

IA