“E coube tudo na malinha de mão do meu coração”

Vindo do outro lado do Atlântico, Liniker.

Com vinte anos apenas, este jovem, que parte de um (des)concertante “Zero”, é a voz revelação do Soul brasileiro… Que diria Padre António Vieira (imaginemo-lo no século XXI), se o ouvisse cantar? E se o visse?…

(Eu acho que gostaria “muito-muito” desta voz tão “tropicalmente” quente!…)

Um bom intervalo, cheio de fim de semana!

IA

“A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar

A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar

A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar

Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração
Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração

A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar

A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar

Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração
Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração

Deixa eu bagunçar você, deixa eu bagunçar você
Deixa eu bagunçar você, deixa eu bagunçar você
A gente fica mordido, não fica?”

E há mais do mesmo aqui: http://www.aescotilha.com.br/musica/radar/liniker-e-sensibilidade-necessaria-ao-brasil/
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Um cantinho para o Amor Cortês

Uma viagem no tempo

Para desanuviar, recuemos 700 anos com um cantar de amor, à maneira provençal, interpretado por Amancio Prada.

 

A dona que eu am’e tenho por senhor

amostrade-mi-a, Deus, se vos en prazer for,

           senom dade-mi a morte.

 

A que tenh’eu por lume destes olhos meus

e por que choram sempr’, amostrade-mi-a, Deus,

          senom dade-mi a morte.

 

Essa que vós fezestes melhor parecer

de quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer,

         senom dade-mi a morte.

 

Ai Deus! que mi a fezestes mais ca mim amar,

mostrade-mi-a, u possa com ela falar,

       senom dade-mi a morte.

Bernal de Bonaval (CBN, B1066)

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Bom fim de semana!

IA

2015 – 2016!

Sísifo

Recomeça....
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E  vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
 
                                    Miguel Torga, Diário XIII

Um poema eterno, porque nele vive a essência do ser humano, com a sua deambulação permanente em busca de si, dos sonhos (mesmo os ilusórios) e do sentido da Vida.

Dou assim início ao ano letivo, não sem antes recordar um tema musical que ilustra o poema torguiano, pelos obstáculos que devemos permanentemente ultrapassar, mas cuja mensagem é claramente otimista. Faz parte da banda sonora de um filme também eterno: em português, Música no Coração; em Inglês, The sound of Music.

Estimo a todos um excelente ano de aprendizagens e partilhas e recolho-me ao trabalho de arranque das atividades letivas, enquanto aguardo o primeiro artigo redigido pelos alunos do 11º 9 da ESG, a turma que este ano  será e fará este Paraíso. Será uma breve apresentação.

IA

Ondas do mar de Vigo

Porque é verão e o mar apetece… Porque o novo programa de Português do 10.º ano banha-nos com este mar galego, do século XIII…

E porque, sem acesso ao meu e-mail (problema recente que ainda não consegui resolver), deixo palavra amiga aos amigos que, porventura, me tenham obsequiado com mensagens estivais… Poderão –  enquanto não dou solução ao meu Gmail – continuar a fazê-lo para o meu e-mail institucional (eu sei, só deve ser usado para o trabalhinho!…)… A não ser que, como eu, também tenham “hibernado”! 🙂

É verdade que costumo retirar-me do mundo virtual, durante as férias de verão, tempo que (sinto) devo dedicar aos meus muito-meus, como compensação das sistemáticas ausências, provocadas pelas rotinas profissionais. Por isso também, este longo offline

Deixo-vos então (e “recolho o meu espírito”, como usa dizer certa personagem garrettiana) duas versões da mesma cantiga (ou cantar) d’ amigo, da autoria de Martin Codax.

Ondas do mar de Vigo,

se vistes meu amigo?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Ondas do mar levado,

se vistes meu amado?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Se vistes meu amigo,

o por que eu sospiro?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Se vistes meu amado,

o por que hei gram coidado?

       e ai Deus, se verrá cedo?

Tenham umas excelentes férias!

IA

Amanhecer com Cesário… Anoitecer com Ella…

Breve interrupção deste intervalo grande, a que chamamos férias de verão.

Porque já foram “Dez horas da manhã“, mas “os transparentes / Matizam uma casa apalaçada“, ainda… E há “brancuras quentes” que persistem!…

Dito por Maria José Peixoto e Vítor Oliveira, ambos professores, um ainda na nossa ESG e outro quase de partida lá mais para sul. O meu muito obrigada por esta partilha, postada no YouTube há já um ano.

«Num bairro moderno

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
“Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…”

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário – que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.»

O Livro de Cesário Verde

E agora é um quando a noite e o dia se opõem, muito ao gosto romântico, em que as sombras predominam e sufocam a luz.

Continuação de boas férias! (Eu cá continuo com minhas provas de exame…)

IA

Uma espécie de Camões 2, misturado com Bosch

A propósito do artigo anterior surge este. Também porque achei que se justifica trazer à luz do século XXI o mundo da Idade Média e do século XVI, aquele que o poeta português e o pintor holandês partilharam (com algumas nuances, claro!).

Ficam então aqui dois vídeos: o primeiro, sobre o quadro donde saiu a imagem que ilustra a esparsa camoniana; o segundo, sobre o pintor que o criou (ao minuto 23 encontramos uma referência a esse quadro). Chamo a atenção para o facto de o primeiro estar titulado, como sendo A tentação de Santo António. No entanto, também é comum ver o tríptico de Bosch denominado como As tentações de Santo Antão. De qualquer modo, o santo é o mesmo e não é o nosso Santo António, mas sim outro que viveu no século  IV. 

As tentações de Santo Antão

A banda sonora deste vídeo (tema criado para o filme O Ilusionista, de Neil Burger) saiu da mão e do génio de Philip Glass e proporciona-nos uma belíssima viagem no tríptico do criativo, enigmático e genial pintor holandês. 

Hieronymus Bosch, El Bosco

Boas viagens!

IA