SER PESSOA

Pessoas são muito mais que pessoas… Muito mais que corpos, que matéria…  Pessoas são almas, essência…

Sendo assim, o que é ser Pessoa?

Pessoa é uma Arte e Arte é entregarmo-nos a alguém no sentido mais puro do verbo.

A entrega de um corpo, de uma alma, dos seus íntimos medos e segredos é dos gestos mais bonitos da humanidade. Gestos que deveriam ser mais sentidos, mais vividos intensamente. Gestos de todos os dias…

Pois, a vida de cada pessoa é como um jardim que espera a chegada da primavera, o despertar dos amores! É como um livro aberto que desespera pelo seu poeta! É como uma tela branca que anseia que a pintemos!

Assim…

Pessoa é pintor. Pessoa é poeta. Pessoa é aquele que ama…

Imaginemos agora um possante leão com a sua força varonil e um delicado anjo repleto de graciosidade. Não podemos nós encontrar estes dois seres numa só Pessoa?

Cada ser humano é tão genuíno, tão diverso e tão completo ao mesmo tempo!… Cada ser humano é tão PESSOA!

Nem que dedicássemos todo o nosso tempo a estudar vários indivíduos seríamos capazes de os decifrar, porque cada Pessoa é um ser único.

E em cada Pessoa existe algo diferente, algo que provoca instabilidade noutra Pessoa… E é tão simples, pois consegue-se tocar o interior de outra Pessoa através da profundidade de olhares, com os mais silenciosos silêncios.

Isto é Arte! Isto é ser Pessoa!

Joana Costa

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Em jeito de despedida

José Saramago em Memorial do Convento dizia: “ao menos deixamos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais”.

Eu, imitando (muito aquém, diga-se) o prémio Nobel português, porque só isso posso, faço o mesmo com os meus meninos da turma 13 do 12.º ano. Acrescento aos nomes apenas alguns “mimos” que nasceram do meu olhar, do meu sentir. E imagino-os flor(es)…

Alexandra

A menina do caderno tão bonito e do sorriso ainda mais, muito mais, bonito! Com ela, tudo se ilumina… (O seu Paulo é um sortudo!)

Ana Cristina

Menina de grande sensibilidade poética, mas nada de “pieguices”, quando se trata de meter pés ao caminho! Aí vai ela e leva o mundo atrás… É uma força da natureza!

Ana Maria

A nossa doce menina aparentemente frágil, mas só aparentemente, porque ela é mesmo muito determinada. E tem uma caligrafia tão segura, tão bonita! Dá gosto lê-la!

Ângela

Um adorável “diabrete” que, às vezes, apaga fogos, tanto no sentido literal como no conotativo. Era impossível um Paraíso sem esta doçura de “Ângela”! Talvez, por isso, ela seja a delegada…

Ana Sofia

Tanta alegria, tanta energia, tanta generosidade e tanto sentido de justiça. É a nossa “padeirinha de Aljubarrota”… Mas muito, muito mais bonita, a nossa Sofia!…

 

Bruna

É uma linda e delicada donzela, saída de um romance de cavalaria, ou não fosse ela também uma grande aficionada de cavalos! E, claro, a nossa ilustríssima repórter fotográfica! Também candidata a escritora…

Catarina

Faz justiça ao seu nome, pois é muito correta e decidida. É muito perseverante na conquista dos seus objetivos, procurando sempre “o fazer bem feito”! Quando ela perder aquela sua “tímida timidez”, cuidado!…

David

O nosso “bon vivant“: dotado de sentido de humor, sempre sereno, no meio da turbulência, exatamente como Ricardo Reis gostaria. Só lhe faltam a Lídia e a beira do rio e o quadro estaria completo: “Vem sentar-te comigo, Lídia…”.

Inês

É caso para dizer: Estavas tu, linda Inês, posta em desassossego!

“Porque é injusto!”, diz ela constantemente. As exposições orais seriam bem mais apagadas sem o intenso brilho da nossa linda Inês! Até o poema “Calma” de Pessoa ficaria, sem a voz dela, mais baço ainda…

João

(Sempre tão ao lado da Inês que eu passei o ano letivo a chamar-lhe Pedro!) É um príncipe, na sua discreta presença, mas sempre atento ao que/a quem o rodeia. Fala pouco, mas quando fala!… 

Mara

Leda serenidade deleitosa / Que representa em terra um paraíso;

Camões deve ter conhecido a nossa Mara, pois eu lembro-me sempre destes versos quando a olho. E assim a recordarei… “Leda serenidade deleitosa”… Também ela é candidata a escritora.

Nelson

Chegou a hora da leitura:

é o Nelson quem avança;

na sua voz sempre segura,

inspira-nos confiança!

 

E ficamos ali presos,

no fascínio da melodia

pois qualquer texto, com ele,

é verdadeira sinfonia!

 

 Paulo

É o meu devoto secretário: computador sempre a jeito, comando sempre disponível e, “Diga, professora, que eu faço!” É tão bom podermos contar com ele!…

Rafaela

É a nossa organista. Muito serena, discreta e elegante! Um dia haveremos concerto! Quem sabe se na belíssima basílica em Mafra… Quem sabe?…

Rita

Tão discreta, tão mimosa,

tão acertada no saber,

tão preocupada com tudo,

que tudo pode vencer…

 

(Queira ela!)

 

Rúben

Tão bonito o nosso Rúben

que a guia, em Mafra, o rebatizou!

Pôs de lado o nome Rúben

e Baltasar lhe chamou!

 

Soraia

É um festival de cor e de alegria a nossa Soraia! Gosta de cantarolar… tem o sentido de humor acertado, um brilhozinho no olhar, às vezes, um pouquinho espantado!

E estes são os dezassete magníficos que me acompanharam ao longo deste ano letivo.

A todos desejo um excelente estágio e afins! E que a vida lhes seja leve!…

Beijinho

IA

DIA DA…

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“Quando eu era pequeno, à noite, e já estava sentado na cama, a mãe dizia
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo
eu ia, ela apagava a luz, e logo a seguir manhã.
Hoje sonhei que estava sentado no parapeito do Viaduto Duarte Pacheco, a minha mãe chegava, dizia
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo
eu ia e logo a seguir nada.
Um dia destes vai ser assim, desejo que um dia destes seja assim.
O meu irmão Pedro morreu muito depressa no dia 21 de Dezembro, como era costume nele sem prevenir ninguém, mas tenho a certeza que, em qualquer ponto seu
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Pedro
pela cama abaixo
só que, se calhar, ninguém tomou atenção a estas palavras. No dia seguinte fomos, os irmãos, dizer à mãe. Estava sentada na cadeira do costume e portou–se com a imensa dignidade com que sempre viveu. As suas palavras foram
– Tenham misericórdia de mim.
Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela.
Depois de
– Tenham misericórdia de mim
que foi a única vez que a vi usar essa palavra, passado um bocado acrescentou
– Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu e morreu de lhe ter morrido o filho, com uma discrição e uma elegância exemplares. Não tinha nenhuma doença especial: apenas a obrigação de cumprir um dever e foi juntar-se ao Pedro. Não comia quase, sentada na cadeira em que recebeu a notícia. Às vezes dizia-lhe versos porque ela gostava muito de poesia. Na igreja disse-lhe um dos seus sonetos preferidos, de António Sardinha, que aprendi com o pai. Costumava contar que o pai, enquanto se arranjava de manhã, na casa de banho, recitava poemas e ela ficava a um canto, a ouvi-lo.
– O que é que a seduziu no pai, mãe?
– A inteligência
ela que começou a namorá-lo aos catorze anos. Isso e a voz do pai, tão sensual:
– Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Talvez o António, um bocadinho.
A sensualidade e a inteligência, ela que era uma mulher muito inteligente. Falava, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça que tinha conhecido menina, lá na Beira Alta, com o entusiasmo com que uma adolescente fala de um actor de cinema. Durante os meses em que esteve a preparar-se para se reunir ao filho às vezes pegava-lhe na mão e os dedos tão suaves e doces. Não éramos ricos, teve muitos filhos, tinha de tomar conta daquilo tudo, costurava, trabalha bastante em casa e quando se arranjava, assim para jantares mais de cerimónia, ficava uma brasa e pêras. Também não era especialmente terna mas contava-me, por exemplo, que, era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. Há alturas em que me sinto culpado pelos problemas que lhe atirei para cima: doenças (uma meningite aos oito meses durante a qual estive em coma, tuberculose aos três anos), o meu mau feitio
(- Assim tão mau, mãe?)
o meu completo desinteresse pelos estudos
(Só se preocupa em escrever e ler)
o seu receio de me ver acabar a vender pensos rápidos e Bordas d’Água nas esplanadas porque a literatura não dá de comer a ninguém, esquecida que a culpa era dela dado que nos ensinou a ler antes de entrarmos para a escola e, em mim, a doença pegou:
– Só liga a livros e a raparigas.
Eu perguntava-lhe
– Existe alguma coisa para além disso, mãe?
e o facto de não responder significava, talvez, que até certo ponto estava de acordo.
Às vezes, ao zangar-se
– Não sorrias porque estou a ralhar-te
e, quando eu sorria, era-lhe difícil ralhar-me
– Sobretudo não faças essa carinha
e eu lá mudava a carinha para o resto da descompostura. Julgo que só compreendi bem o que sentia por mim quando estava com o cancro e ela veio visitar-me. Não era mulher de lágrimas mas a cara encontrava-se cheia delas, escondidas. Agora tenho o seu retrato ali e sou eu que as escondo. Pior do que você, mãe, visto que sou mais chorão. A Zézinha nasceu quando eu na guerra e escreveu-me a contar: “não sei se estás vivo ou morto porque há um mês e meio que não sei nada de ti”. Estava vivo. Não assim muito vivo, mas vivo, ao passo que quanto a si, mãe, nunca esteve tão viva como agora.
Com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo.
Tanta coisa que eu podia contar a seu respeito, e não conto, e jamais contei. Não sou capaz, tenho pudor. Enquanto a metiam debaixo da terra e não aguentei, fui-me embora. Fazia um dia de sol muito bonito. E tive a certeza de ver o Pedro ao longe. Não precisámos de falar. Quase nunca precisávamos de falar para nos entendermos. Mas a palavra mãe ia de um para o outro. E somos nós que vamos pela cama abaixo. A mãe será a última pessoa a ficar, olhando para a gente. Nascemos de si, não tem o direito de se ir embora. Não concorda? Olhe que eu ponho-me a sorrir aquele sorrisinho parvo até escutar que sim.”

António Lobo Antunes, in Visão, 8 de janeiro de 2015

A tela nasceu da mão de  Auguste Renoir.