Intervalando com pintura

Qui a peint Nature morte devant la maison jaune ?

Raoul Dufy, Nature morte devant la maison jaune 

Tenham um excelente fim de semana!

IA

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A Poesia e a Pintura de mãos dadas

cesarioeamadeo

Os alunos foram desafiados a encontrar aspetos comuns, quer a nível temático quer a nível formal, entre a poesia de um e a pintura do outro. Esta é parte da leitura que a Catarina fez de versos do poema “A Débil”, quando “casados” com dois quadros de Amadeo de Souza-Cardoso, identificados no fim do artigo.

IA

A Débil

“Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!” disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;  
E invejava, — talvez que não o suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

(…)

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.” 

Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’

“Cesário descreve a bela mulher psicologicamente como sendo frágil, natural, recolhida, pura… e, fisicamente, como sendo jovem, loura, dona de um corpo alegre e de uma cintura estreita, adorável, elegante… Porém, o sujeito poético sente-se “feio, sólido e leal”.

Ele “pinta” ainda os espaços físicos onde se encontram, utilizando uma caracterização disfórica e negativa – “…à mesa dum café devasso, (…) Nesta Babel tão velha e corruptora” -, permitindo o contraste entre a mulher frágil e bela e o local fechado e obscuro (…). A jovem “pintada” nos versos de Cesário, parece uma combinação entre a mulher do campo e a da cidade, respetivamente, em relação ao retrato que o eu poético faz dela e ao espaço em que esta se encontra. O poeta-pintor utiliza imagens visuais, um vocabulário preciso e a adjetivação para enriquecer as suas descrições. Afasta-se do lirismo romântico através dessa objetividade. Os dois quadros adequam-se, na minha opinião, ao retrato do sujeito poético e a esta mulher, devido às cores vivas e à solidez das formas.”

Catarina

Quadros de Amadeo de Souza_cardoso: Cabeça (óleo sobre cartão) e Canção Popular e o Pássaro do Brasil (óleo sobre tela) 

Antero de Quental… a Só(s) num trio

Edvard Munch, Melancolia

A Alberto Teles

 Só! – Ao ermita sozinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céu tenha. . .

Só! – Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança;
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que à noite soluça em erma penha. . .

Só! – Não o é quem na dor, quem nos cansaços,
Tem um laço que o prenda a este fadário,
Uma crença, um desejo. . . e inda um cuidado. . .

Mas cruzar, com desdém, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitário,
Isto é ser só, é ser abandonado!

Antero de Quental, in Sonetos Completos. Ulisseia

E para acompanhar Antero e Munch nesta (não) solidão, fica também Heitor Villa-Lobos.

Tenham um ótimo fim de semana!

IA