Complemento do Nome

Visto que este é um conteúdo sintático ainda a trabalhar com mais rigor, surge o artigo seguinte (que sofreu alguns cortes), pedido emprestado ao blogue Carruagem 23. Porque “Quem sabe sabe!”…

Aqui se pretende, a partir de alguns exemplos, estabelecer a diferença entre complemento do nome e modificador do nome restritivo.

Desde já o meu agradecimento ao professor Vítor Oliveira.

IA

“Novo desafio linguístico: ser ou não ser modificador

    (…)
1) O pai do João comprou um carro novo.

(1’: ‘ do João’ é complemento do nome [‘pai’ – nome de parentesco])

2) Para sobremesa, pedi bolo de chocolate.

(2’: ‘de chocolate’ é modificador restritivo)

3) A decisão do presidente foi contestada por todos os partidos políticos.

(3’: ‘do presidente’ é complemento do nome [‘decisão’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do agente da decisão])

4) A viagem de comboio foi uma experiência agradável.

(4’: ‘de comboio’ é modificador restritivo)

5) O professor de Português a) pediu muita atenção na construção do texto b).

(5a’: ‘de Português’ é modificador restritivo; 5b’: ‘do texto’ é complemento do nome [‘construção’ – nome derivado de verbo transitivo, seguido do tema da construção])

     Na verdade, a configuração ‘de+N’ interna ao Grupo Nominal destacado corresponde a comportamentos sintácticos distintos: num caso, ‘de+N’ é um complemento requerido pelo núcleo nominal (‘pai’, em 1; ‘decisão’, em 3; ‘construção’, em 5b); noutro caso, trata-se de um modificador, pois o núcleo nominal (‘bolo’, em 2; ‘viagem’, em 4; ‘professor’, em 5a) não pede, na sua estrutura argumental, nenhuma forma de complementação .
     Tipicamente, os nomes que pedem complementos (podendo estes últimos estar ou não realizados nas frases, à semelhança do que acontece com os complementos dos verbos) são os seguintes:
nomes formados a partir de verbos transitivos (se o verbo transitivo de base tem uma estrutura argumental que requer complementos, o nome que deriva desse verbo admite a mesma propriedade, solicitando o agente, tema, possuidor associado ao nome – caso de ‘decisão’ <Alguém DECIDIR Algo>, por exemplo);
nomes de parentesco (caso de ‘pai’, ‘filho’, ‘irmão’);
nomes icónicos (caso de ‘fotografia’, ‘imagem’, ‘retrato’);
nomes epistémicos (caso de ‘hipótese’, ‘ideia’, ‘obrigação’, ‘dever’);
nomes relacionados com adjectivos simétricos (caso de ‘diferença’ / ‘semelhança’ [formados a partir de ‘diferente / semelhante’]);
(…)
      Nenhum destes casos é o de ‘bolo’, ‘viagem’ ou ‘ professor’, razão pela qual estes últimos estão seguidos de um modificador que lhes restringe a referência (modificador restritivo).
     A este propósito, confronte-se a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Maria Helena Mira Mateus (2003: 330-344 e 376-383).”
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Subordinação

orações subordinadas substantivas relativas

conectores

Pronomes relativos

Quantificadores relativos

Advérbios relativos

que, o que, quem,

a quem, o/a qual,

os/as quais

quanto, quanta,

quantos, quantas

onde

como

As orações subordinadas substantivas relativas podem desempenhar várias funções sintáticas: sujeito, complemento direto, complemento indireto, complemento oblíquo, complemento agente da passiva, predicativo de sujeito e modificador do grupo verbal.

Exemplos:

  • Padre António Vieira sabia bem o que dizia.   complemento direto
  • Quem acusava os colonos acabava por ser perseguido.   sujeito
  • Onde estivesse Vieira, o povo, curioso, reunia-se.   modificador do grupo verbal
  • Ele sabia como comover e convencer o seu público.   complemento direto
  • Ele deu ao índios brasileiros quanto tinha da sua fé.   complemento direto
  • Elogiou quem era digno de o ser. complemento direto
  • O polvo não é quem parece.   predicativo do sujeito
  • Falava sempre a quem o quisesse ouvir.   complemento indireto
  • O orador gostava de quem seguisse com amor e verdade a fé cristã. complemento oblíquo
  • Infelizmente, o Sermão de Santo António não foi apreciado por quem mais dele precisava.   complemento agente da passiva
  • Padre António Vieira conhecia os vícios dos homens e sabia bem quais repreender nos peixes.   complemento direto
  • Os indígenas viviam como podiam.   modificador do grupo verbal

Boas aprendizagens!

IA

conectores – Ficha de trabalho

Aconselha-se a consulta do auxiliar de estudo Português - Testes e Exame, Ensino Secundário, 12.º ano escolaridade, edições ASA (p. 231).

Tenho de ou Tenho que?…

Aluno – Professora, diz-se tenho de ou tenho que?

Professora – Diz-se das duas maneiras, P… Mas com sentidos diferentes.

Aluno – Como assim?…

Professora – Quando se utiliza tenho de, o verbo ter é auxiliar de um outro e exprime necessidade, dever, obrigação. Aliás, é um dos verbos que é marca linguística da modalidade deôntica de obrigação… Em, por exemplo, “Hoje, tenho de sair mais cedo!” expressa-se uma necessidade, ou seja, o verbo é sinónimo de “precisar de” e poderíamos dizer: “Hoje preciso de sair mais cedo!“. Quando se utiliza tenho que, ter é verbo principal e que introduz uma oração subordinada. Ora vê esta frase: “Hoje, tenho que fazer, não posso sair contigo!“. O verbo ter tem como complemento direto a oração subordinada.

Aluno – E é completiva a oração? Que é conjunção?

Professora – Parece, não parece?… Mas tenho dúvidas. Penso que aquele que é pronome relativo e refere-se a um pronome indefinido ou a um demostrativo elidido. A frase inicial deveria ser qualquer coisa deste género: “Hoje, tenho MUITO (muita coisa) que fazer.” ou “Hoje, tenho o que fazer.”… E aqui está uma boa estratégia para tu distinguires as duas expressões pois, quando se usa tenho de, não consegues fazer o que eu fiz com o último exemplo. Ora vê: “Hoje, tenho muito (muita coisa) de sair mais cedo!”. Não funciona, pois não?! E com a segunda hipótese também não. “Hoje, tenhode fazer.“!…

Aluno – Pois… Não funciona, não! Mas o melhor, para mim, é eu pensar na primeira estratégia, tipo, substituir o tenho de ou tenho que por preciso de e vejo logo se dá, se tem o mesmo sentido.

Professora – É uma boa estratégia, de facto!

Aluno – E a oração?… É subordinada completiva?

Professora – Esse é um mistério que terei de desvendar… Talvez tenha de fazer uma pequena viagem de comboio. Numa certa Carruagem 23!…

IA

Atrever-me-ia a dizer que a oração destacada em "Hoje, tenho que fazer.", considerando que corresponde a "o que fazer.", se classifica como oração subordinada substantiva relativa. Mas aguardo resposta de mestre...