Ainda Pessoa e o seu “mestre”…

A instrução era a que segue abaixo. Como exemplo de dois trabalhos bem conseguidos, temos os textos A e o B, produzidos por duas alunas do 12.º 10, aquando da realização do teste de avaliação sumativa.

INSTRUÇÃO:

Na carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa afirma “Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.”.

     Partindo da afirmação acima transcrita, redija um texto expositivo, de 130 a 160 palavras, em que dê conta das principais diferenças temáticas e formais entre a obra poética do “mestre” e a de Pessoa .

 

Resposta A

Pessoa afirma que Caeiro é o seu “mestre” e talvez seja porque este último exprime “tudo” o que Pessoa deseja ser/sentir mas não consegue.

Enquanto o ortónimo elabora poemas sobre a dor de pensar, o fingimento artístico, a dicotomia sonho/realidade e a nostalgia da infância (todos eles acabam sempre por exprimir dor/infelicidade do eu lírico ou o desejo de ser instintivo/inconsciente), Caeiro escreve sobre a ordem natural do mundo, a simplicidade da vida rural e a objetividade, valorizando as sensações e negando o pensamento. Assim, neste aspeto, eles são opostos.

Embora ambos recorram a um vocabulário simples, Pessoa emprega metáforas complexas e símbolos, já Caeiro usa uma linguagem coloquial, espontânea, que se assemelha à própria Natureza, que ele tanto valoriza. Dessa forma, a poesia do “mestre” possui irregularidade formal. Já a do ortónimo apresenta regularidade, com estrofes e versos curtos e também musicalidade.

Assim concluímos que Caeiro pode ser interpretado como a pessoa que Pessoa deseja ser na sua poesia. (160 palavras)

Lídia Santos, 12.º 10

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imagem colhida em Google Imagens

Resposta B

Pessoa cria Caeiro e elege-o seu “mestre”.

O heterónimo surge quase como uma resposta à dor de pensar do ortónimo Pessoa, que sofre por ser excessivamente consciente e racional, mostrando o seu desejo de ser instintivo. Pelo contrário, o mestre recusa o pensamento e é feliz porque se limita a observar/sentir a Natureza (primado das sensações).

Enquanto Pessoa recorre ao fingimento artístico para melhor expressar sentimentos, Caeiro preconiza a expressão sincera do que sente. Considera que relembrar é atraiçoar a ordem natural das coisas, evitando, por isso, recordar o passado. Contrariamente, o ortónimo refugia-se na infância, para fugir à realidade, vendo esse período como um “paraíso perdido”, época mais próxima da inconsciência.

A linguagem simbólica e metafórica, os jogos de palavras, a musicalidade e a regularidade formal de Pessoa contrastam com o vocabulário e metáforas simples e não livrescos, a narratividade, a linguagem coloquial e a irregularidade formal de Caeiro.

Caeiro é assim considerado o “mestre” de Pessoa e dos restantes heterónimos. (160 palavras)

Mafalda Alvim, 12.º 10

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