Lado Esquerdo – Clã

Uma outra abordagem à dicotomia SENTIR/PENSAR, que está na base de parte da produção poética de Pessoa ortónimo, é o que vos proponho hoje.

Uma canção e uma atividade.

  1. Proceda à audição do tema, da autoria da banda musical Clã, e faça o levantamento das diferentes expressões que estão associadas ao “lado esquerdo”.
  2. Caracterize o “outro” lado.
  3. Explicite a relação que esses dois lados do sujeito poético estabelecem com a dicotomia pessoana SENTIR/PENSAR.

Bom trabalho!

IA

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Tentando afinar-me num agosto “desafinado”

Dia para ouvir João Gilberto

E para (re)ler um poema de Al berto que parece enquadrar-se com a “reclusão” que João Gilberto viveu nos últimos anos da sua vida.

14 de janeiro

 

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.

curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.

desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.

sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar?

e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz.

escrevo com um único fim: salvar o dia.

 

Fiquem bem!

IA

Férias de Verão, venham elas…

Resultado de imagem para férias de verão

Devia ser verão, devia ser jovem.

ao encontro do dia caminhava

como quem entra na água.

 

Um corpo nu brilhava nas areias

– corpo ou pedra?, pedra ou flor?

 

Verde era a luz, e a espuma

do vento rolava nas dunas.

 

Aproximei-me desse corpo nu,

o coração latino de alegria.

 

De repente vi o mar subir o prumo,

Desatar inteiro nos meus ombros.

 

Sem muros era a terra, e tudo ardia.

Eugénio de Andrade, “Anunciação da Alegria”

 

E, para acompanhar, “La mer”, em inglês “Beyond the sea”, uma canção que já mora neste Bem-Vindo ao Paraíso, noutras versões…

Fiquem bem!

IA

DIA DA MÃE (2019)

Feliz Dia da Mãe!

UM POUCO SÓ DE GOYA: CARTA A MINHA FILHA:

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo, 
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar

o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 
E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio

ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral 

IA

Fim do 2.º período com

um dos temas do filme “Cinema Paraíso”

e um poema de António Ramos Rosa.

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in “Volante Verde” 

Fiquem bem!

IA

Feliz Natal 2018

Caros alunos e todos aqueles que visitam este Bem-Vindo ao Paraíso, estimo-vos um Santo Natal!

Deixo-vos com um poema de Natália Correia e música natalícia.

IA

Em Cruz não Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados

da infância. Intérmina, a mãe 
fazia o bolo unido e quente 
da noite na boca das crianças 
acordadas de repente. 

Torres e ovelhas de barro 
que do armário saíam 
para formar a cidade 
onde o menino nascia. 

Menino pronunciado 
como uma palavra vagarosa 
que terminava numa cruz 
e começava numa rosa. 

Natal bordado por tias 
que teciam com seus dedos 
estradas que então havia 
para a capital dos brinquedos. 

E as crianças com a tinta invisível 
do medo de serem futuro 
escreviam os seus pedidos 
no muro que dava para o impossível, 

chão de estrelas onde dançavam 
a sua louca identidade 
de serem no dicionário 
da dor futura: saudade. 

Natália Correia, in ‘O Dilúvio e a Pomba’ 

Lírica Trovadoresca: um breve regresso e uma sistematização completa

Meus caros alunos, começo por convidar-vos a revisitar este artigo, disponível no seguinte link: 

https://isauraafonseca.wordpress.com/2015/10/16/um-cantinho-para-o-amor-cortes/

E, depois, partiremos para este pequeno filme, da autoria de Joaquim Matias da Silva e disponível no YouTube.

Aconselho o visionamento de apenas três sequências, ocorrendo, por isso, corte de informação para vós excedentária:

  • primeira sequência: do início até ao minuto 1:20;
  • segunda sequência: do minuto 13:30 até ao 21:40;
  • terceira sequência: do minuto 27:00 até ao fim.

Nestas três sequências são-vos apresentadas as principais características temáticas e formais das cantigas de amigo, de amor, de escárnio e de maldizer, que constituem o lirismo trovadoresco.

Se por acaso alunos de Literatura Portuguesa “tropeçarem” neste cantinho do Paraíso, aconselho o visionamento de todo o filme, pois é um verdadeiro “banquete”, no que diz respeito aos (sub)géneros e às respetivas características formais e temáticas do Trovadorismo Medieval.

Boas viagens literárias!

IA