Van Gogh e Dvorak, um encontro possível

É uma espécie de banda sonora para um poema (?) que nasceu de uma paisagem que mora no Bem-Vindo ao Paraíso. Mesmo pertinho daqui, no artigo anterior.

Certa planície francesa

 

Há um silêncio suspenso no azul que se inclina

em verdes matizados

três aves pernaltas que são árvores

(talvez flamingos?)

aconchegam na sua sombra

outras aves aninhadas que são arbustos

 

à esquerda

o cabelo palha de um homem

confunde-se com o verde-palha

de amontoados pés de trigo em repouso

parece suster nas mãos um livro aberto

que desfia o silêncio

 

há palavras que gritam no livro

 

flores vermelhejam ao centro

em primeiro plano

brancos turvos

hesitam

semeiam-se

e esperam que o silêncio dê lugar ao canto

 

onde moram os pássaros chilreantes?

 

cogitam os campos  estendidos

em lânguidas mantas de retalhos

lânguidas mantas de retalhos

que dormem à espera de um beijo

um beijo que as estremeça de vida

da vida que brota do silêncio demiurgo

 

uma folha balouça ao vento

e outras palavras gritam no coração

do homem que não existe

mas parece existir na turvação

dos olhos aninhados na sinfónica paisagem

 

mas se existe no olhar turvo

existe

existe como existe o silêncio

que se vê pintado de azul e verde

e de outros amarelos-verdes suspensos

nessa imensa tela goghiana…

IA

 

Natal 2019

Um Santo Natal para todos!

IA

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.José Luís Peixoto, in ‘A Criança em Ruínas

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, em ‘Cancioneiro de Natal’

Se eu pudesse trincar a terra toda

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma coisa para trincar

Seria mais feliz um momento…

Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz

Para se poder ser natural…

 

Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva…

 

O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

Pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica…

Assim é e assim seja…

 

7-3-1914, “O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 

Pessoa e a dor de pensar (2)

À semelhança de artigo já antigo (tem dois anos), surge a sequência de poemas que se apresenta abaixo.

Mais uma vez, o “eu” que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente 

  •  essa“loucura que vem / de querer compreender”;

  • “uma ânsia que não acerta /Com aquilo em que pensa.”;

  • “o pensar, que é (…) vício!”;

  • numa permanente angústia existencial, que se traduz no verso “Eu sofro sem pena a vida.” e no apelo expresso no penúltimo poema: “Quem me lava o coração?”.

Enfim, na impossibilidade de apenas sentir, de ser somente fruto do seu inconsciente, porque este “eu” presente na poesia do ortónimo é, na sua essência, um ser pensante (e não quer deixar de o ser!), ele vive angustiado, dividido, de alma dilacerada, isto é, ele (sobre)vive na DOR DE PENSAR…

Fúria nas trevas o vento

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

ALGA

Paira na noite calma
O silêncio da brisa. . .
Acontece-me à alma
Qualquer coisa imprecisa. . .

Uma porta entreaberta. . .
Um sorriso em descrença. . .
Uma ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sonha, duvida, elevo-a
Até quem me suponho
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho. . .

24-7-1916
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário

É brando o dia, brando o vento 

 

É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu. 
Assim fosse meu pensamento! 
Assim fosse eu, assim fosse eu! 

Mas entre mim e as brandas glórias 
Deste céu limpo e este ar sem mim 
Intervêm sonhos e memórias… 
Ser eu assim, ser eu assim! 

Ah, o mundo é quanto nós trazemos. 
Existe tudo porque existo. 
Há porque vemos. 
E tudo é isto, tudo é isto! 

15-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 154.

A ciência, a ciência, a ciência…

 

A ciência, a ciência, a ciência…

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

[…]

 

4-10-1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 172.

A lavadeira no tanque

 

A lavadeira no tanque

Bate roupa em pedra bem.

Canta porque canta e é triste

Porque canta porque existe;

Por isso é alegre também.

 

Ora se eu alguma vez

Pudesse fazer nos versos

O que a essa roupa ela fez,

Eu perderia talvez

Os meus destinos diversos.

 

Há uma grande unidade

Em, sem pensar nem razão,

E até cantando a metade,

Bater roupa em realidade…

Quem me lava o coração?

15-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 83.

MARINHA

Ditosos a quem acena

Um lenço de despedida!

São felizes: têm pena…

Eu sofro sem pena a vida.

 

Doo-me até onde penso,

E a dor é já de pensar,

Órfão de um sonho suspenso

Pela maré a vazar…

 

E sobe até mim, já farto

De improfícuas agonias,

No cais de onde nunca parto,

A maresia dos dias.

s. d. 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 219.

Boas Leituras!

IA

Lado Esquerdo, de Clã, e a “Dor de Pensar”, de Pessoa

Uma outra abordagem à dicotomia SENTIR/PENSAR, que está na base de parte da produção poética de Pessoa ortónimo, é o que vos proponho hoje.

Uma canção e uma atividade.

  1. Proceda à audição do tema, da autoria da banda musical Clã, e faça o levantamento das diferentes expressões que estão associadas ao “lado esquerdo”.
  2. Caracterize o “outro” lado.
  3. Explicite a relação que esses dois lados do sujeito poético estabelecem com a dicotomia pessoana SENTIR/PENSAR.

Bom trabalho!

IA

Tentando afinar-me num agosto “desafinado”

Dia para ouvir João Gilberto

E para (re)ler um poema de Al berto que parece enquadrar-se com a “reclusão” que João Gilberto viveu nos últimos anos da sua vida.

14 de janeiro

 

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.

curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.

desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.

sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar?

e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz.

escrevo com um único fim: salvar o dia.

 

Fiquem bem!

IA