Se eu pudesse trincar a terra toda

XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma coisa para trincar

Seria mais feliz um momento…

Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz

Para se poder ser natural…

 

Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva…

 

O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

Pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica…

Assim é e assim seja…

 

7-3-1914, “O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 

Pessoa e a dor de pensar (2)

À semelhança de artigo já antigo (tem dois anos), surge a sequência de poemas que se apresenta abaixo.

Mais uma vez, o “eu” que vive no poema, partindo da realidade que observa, reflete sobre a alma que há/é em si e (re)descobre-se refém da sua própria essência: ele é um ser que pensa e vive constantemente 

  •  essa“loucura que vem / de querer compreender”;

  • “uma ânsia que não acerta /Com aquilo em que pensa.”;

  • “o pensar, que é (…) vício!”;

  • numa permanente angústia existencial, que se traduz no verso “Eu sofro sem pena a vida.” e no apelo expresso no penúltimo poema: “Quem me lava o coração?”.

Enfim, na impossibilidade de apenas sentir, de ser somente fruto do seu inconsciente, porque este “eu” presente na poesia do ortónimo é, na sua essência, um ser pensante (e não quer deixar de o ser!), ele vive angustiado, dividido, de alma dilacerada, isto é, ele (sobre)vive na DOR DE PENSAR…

Fúria nas trevas o vento

Fúria nas trevas o vento

Num grande som de alongar

Não há no meu pensamento

Senão não poder parar

 

Parece que a alma tem

Treva onde sopre a crescer

Uma loucura que vem

De querer compreender.

 

Raiva nas trevas o vento

Sem se poder libertar.

Estou preso ao meu pensamento

Como o vento preso ao ar.

23-5-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 141.

ALGA

Paira na noite calma
O silêncio da brisa. . .
Acontece-me à alma
Qualquer coisa imprecisa. . .

Uma porta entreaberta. . .
Um sorriso em descrença. . .
Uma ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sonha, duvida, elevo-a
Até quem me suponho
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho. . .

24-7-1916
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário

É brando o dia, brando o vento 

 

É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu. 
Assim fosse meu pensamento! 
Assim fosse eu, assim fosse eu! 

Mas entre mim e as brandas glórias 
Deste céu limpo e este ar sem mim 
Intervêm sonhos e memórias… 
Ser eu assim, ser eu assim! 

Ah, o mundo é quanto nós trazemos. 
Existe tudo porque existo. 
Há porque vemos. 
E tudo é isto, tudo é isto! 

15-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 154.

A ciência, a ciência, a ciência…

 

A ciência, a ciência, a ciência…

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

[…]

 

4-10-1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 172.

A lavadeira no tanque

 

A lavadeira no tanque

Bate roupa em pedra bem.

Canta porque canta e é triste

Porque canta porque existe;

Por isso é alegre também.

 

Ora se eu alguma vez

Pudesse fazer nos versos

O que a essa roupa ela fez,

Eu perderia talvez

Os meus destinos diversos.

 

Há uma grande unidade

Em, sem pensar nem razão,

E até cantando a metade,

Bater roupa em realidade…

Quem me lava o coração?

15-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 83.

MARINHA

Ditosos a quem acena

Um lenço de despedida!

São felizes: têm pena…

Eu sofro sem pena a vida.

 

Doo-me até onde penso,

E a dor é já de pensar,

Órfão de um sonho suspenso

Pela maré a vazar…

 

E sobe até mim, já farto

De improfícuas agonias,

No cais de onde nunca parto,

A maresia dos dias.

s. d. 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 219.

Boas Leituras!

IA

Lado Esquerdo, de Clã, e a “Dor de Pensar”, de Pessoa

Uma outra abordagem à dicotomia SENTIR/PENSAR, que está na base de parte da produção poética de Pessoa ortónimo, é o que vos proponho hoje.

Uma canção e uma atividade.

  1. Proceda à audição do tema, da autoria da banda musical Clã, e faça o levantamento das diferentes expressões que estão associadas ao “lado esquerdo”.
  2. Caracterize o “outro” lado.
  3. Explicite a relação que esses dois lados do sujeito poético estabelecem com a dicotomia pessoana SENTIR/PENSAR.

Bom trabalho!

IA

Tentando afinar-me num agosto “desafinado”

Dia para ouvir João Gilberto

E para (re)ler um poema de Al berto que parece enquadrar-se com a “reclusão” que João Gilberto viveu nos últimos anos da sua vida.

14 de janeiro

 

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.

curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.

desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.

sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar?

e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz.

escrevo com um único fim: salvar o dia.

 

Fiquem bem!

IA

Férias de Verão, venham elas…

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Devia ser verão, devia ser jovem.

ao encontro do dia caminhava

como quem entra na água.

 

Um corpo nu brilhava nas areias

– corpo ou pedra?, pedra ou flor?

 

Verde era a luz, e a espuma

do vento rolava nas dunas.

 

Aproximei-me desse corpo nu,

o coração latino de alegria.

 

De repente vi o mar subir o prumo,

Desatar inteiro nos meus ombros.

 

Sem muros era a terra, e tudo ardia.

Eugénio de Andrade, “Anunciação da Alegria”

 

E, para acompanhar, “La mer”, em inglês “Beyond the sea”, uma canção que já mora neste Bem-Vindo ao Paraíso, noutras versões…

Fiquem bem!

IA

DIA DA MÃE (2019)

Feliz Dia da Mãe!

UM POUCO SÓ DE GOYA: CARTA A MINHA FILHA:

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo, 
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar

o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 
E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio

ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral 

IA

Fim do 2.º período com

um dos temas do filme “Cinema Paraíso”

e um poema de António Ramos Rosa.

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in “Volante Verde” 

Fiquem bem!

IA