Férias de Verão, venham elas…

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Devia ser verão, devia ser jovem.

ao encontro do dia caminhava

como quem entra na água.

 

Um corpo nu brilhava nas areias

– corpo ou pedra?, pedra ou flor?

 

Verde era a luz, e a espuma

do vento rolava nas dunas.

 

Aproximei-me desse corpo nu,

o coração latino de alegria.

 

De repente vi o mar subir o prumo,

Desatar inteiro nos meus ombros.

 

Sem muros era a terra, e tudo ardia.

Eugénio de Andrade, “Anunciação da Alegria”

 

E, para acompanhar, “La mer”, em inglês “Beyond the sea”, uma canção que já mora neste Bem-Vindo ao Paraíso, noutras versões…

Fiquem bem!

IA

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DIA DA MÃE (2019)

Feliz Dia da Mãe!

UM POUCO SÓ DE GOYA: CARTA A MINHA FILHA:

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo, 
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar

o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 
E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio

ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral 

IA

Fim do 2.º período com

um dos temas do filme “Cinema Paraíso”

e um poema de António Ramos Rosa.

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in “Volante Verde” 

Fiquem bem!

IA

Feliz Natal 2018

Caros alunos e todos aqueles que visitam este Bem-Vindo ao Paraíso, estimo-vos um Santo Natal!

Deixo-vos com um poema de Natália Correia e música natalícia.

IA

Em Cruz não Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados

da infância. Intérmina, a mãe 
fazia o bolo unido e quente 
da noite na boca das crianças 
acordadas de repente. 

Torres e ovelhas de barro 
que do armário saíam 
para formar a cidade 
onde o menino nascia. 

Menino pronunciado 
como uma palavra vagarosa 
que terminava numa cruz 
e começava numa rosa. 

Natal bordado por tias 
que teciam com seus dedos 
estradas que então havia 
para a capital dos brinquedos. 

E as crianças com a tinta invisível 
do medo de serem futuro 
escreviam os seus pedidos 
no muro que dava para o impossível, 

chão de estrelas onde dançavam 
a sua louca identidade 
de serem no dicionário 
da dor futura: saudade. 

Natália Correia, in ‘O Dilúvio e a Pomba’ 

Lírica Trovadoresca: um breve regresso e uma sistematização completa

Meus caros alunos, começo por convidar-vos a revisitar este artigo, disponível no seguinte link: 

https://isauraafonseca.wordpress.com/2015/10/16/um-cantinho-para-o-amor-cortes/

E, depois, partiremos para este pequeno filme, da autoria de Joaquim Matias da Silva e disponível no YouTube.

Aconselho o visionamento de apenas três sequências, ocorrendo, por isso, corte de informação para vós excedentária:

  • primeira sequência: do início até ao minuto 1:20;
  • segunda sequência: do minuto 13:30 até ao 21:40;
  • terceira sequência: do minuto 27:00 até ao fim.

Nestas três sequências são-vos apresentadas as principais características temáticas e formais das cantigas de amigo, de amor, de escárnio e de maldizer, que constituem o lirismo trovadoresco.

Se por acaso alunos de Literatura Portuguesa “tropeçarem” neste cantinho do Paraíso, aconselho o visionamento de todo o filme, pois é um verdadeiro “banquete”, no que diz respeito aos (sub)géneros e às respetivas características formais e temáticas do Trovadorismo Medieval.

Boas viagens literárias!

IA

Intervalando com Morango(s)

imagem colhida por FA

Morangos

No começo do amor, quando as cidades 
nos eram desconhecidas, de que nos serviria 
a certeza da morte se podíamos correr 
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite 
e acabar na praia a comer morangos 
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos 

a vida inteira pela frente. Mas, amigos, 
como pudemos pensar que seria assim 
para sempre? Ou que a música e o desejo 
nos conduziriam de estação em estação 
até ao pleno futuro que julgávamos 

merecer? Afinal, o futuro era isto. 
Não estamos mais sábios, não temos 
melhores razões. Na viagem necessária 
para o escuro, o amor é um passageiro 
ocasional e difícil. E a partir de certa altura 
todas as cidades se parecem. 

Rui Pires Cabral, in ‘Longe da Aldeia’ 

BOM DOMINGO!
IA

INÊS – Mais do que um intervalo!

A propósito da tradição literária (continuidade ou transgressão) surgem dois poemas: um a estudar na aula, da autoria de Ana Luísa Amaral; outro, de Miguel Torga. O dela entra em rutura com essa tradição, questiona a longevidade/eternidade do amor ou a visão idealizada ou idealizante do mesmo; o dele continua o que Fernão Lopes antecipou e que Camões e António Ferreira esculpiram em género lírico e dramático, respetivamente, abrindo caminho a poetas posteriores, nomeadamente Bocage. 

Mas comecemos com música, em jeito de banda sonora. Em Inglês, porque o amor não escolhe língua. Comeemos com “The Story”, em que se afirma obstinadamente “I was made for you!”. Poderia ter sido Inês a dizê-lo. Ou o seu amado Pedro.

 

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS 

É tarde. Inês é velha. 
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar 
e passa o dia todo em solene toada: 
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro! 
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar 
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

Ana Luísa Amaral

Antes do fim do mundo, despertar

Antes do fim do mundo, despertar,
Sem D. Pedro sentir,
E dizer às donzelas que o luar
E o aceno do amado que há-de vir…

E mostrar-lhes que o amor contrariado
Triunfa até da própria sepultura:
O amante, mais terno e apaixonado,
Ergue a noiva caída à sua altura.

E pedir-lhes, depois fidelidade humana
Ao mito do poeta, à linda Inês…
À eterna Julieta castelhana
Do Romeu português.

Miguel Torga

 

E agora Bocage:

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores;

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.

 

«Mísero esposo,

Desata o pranto,

Que o teu encanto

Já não é teu.

 

«Sua alma pura

Nos Céus se encerra;

Triste da Terra,

Porque a perdeu.

 

«Contra a cruenta

Raiva íerina,

Face divina

Não lhe valeu.

 

«Tem roto o seio

Tesoiro oculto,

Bárbaro insulto

Se lhe atreveu.

 

«De dor e espanto

No carro de oiro

O Númen loiro

Desfaleceu.

 

«Aves sinistras

Aqui piaram

Lobos uivaram,

O chão tremeu.

 

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores:

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.»

Tenham um bom fim de semana!

IA