2015 – 2016!

Sísifo

Recomeça....
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E  vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
 
                                    Miguel Torga, Diário XIII

Um poema eterno, porque nele vive a essência do ser humano, com a sua deambulação permanente em busca de si, dos sonhos (mesmo os ilusórios) e do sentido da Vida.

Dou assim início ao ano letivo, não sem antes recordar um tema musical que ilustra o poema torguiano, pelos obstáculos que devemos permanentemente ultrapassar, mas cuja mensagem é claramente otimista. Faz parte da banda sonora de um filme também eterno: em português, Música no Coração; em Inglês, The sound of Music.

Estimo a todos um excelente ano de aprendizagens e partilhas e recolho-me ao trabalho de arranque das atividades letivas, enquanto aguardo o primeiro artigo redigido pelos alunos do 11º 9 da ESG, a turma que este ano  será e fará este Paraíso. Será uma breve apresentação.

IA

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Ondas do mar de Vigo

Porque é verão e o mar apetece… Porque o novo programa de Português do 10.º ano banha-nos com este mar galego, do século XIII…

E porque, sem acesso ao meu e-mail (problema recente que ainda não consegui resolver), deixo palavra amiga aos amigos que, porventura, me tenham obsequiado com mensagens estivais… Poderão –  enquanto não dou solução ao meu Gmail – continuar a fazê-lo para o meu e-mail institucional (eu sei, só deve ser usado para o trabalhinho!…)… A não ser que, como eu, também tenham “hibernado”! 🙂

É verdade que costumo retirar-me do mundo virtual, durante as férias de verão, tempo que (sinto) devo dedicar aos meus muito-meus, como compensação das sistemáticas ausências, provocadas pelas rotinas profissionais. Por isso também, este longo offline

Deixo-vos então (e “recolho o meu espírito”, como usa dizer certa personagem garrettiana) duas versões da mesma cantiga (ou cantar) d’ amigo, da autoria de Martin Codax.

Ondas do mar de Vigo,

se vistes meu amigo?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Ondas do mar levado,

se vistes meu amado?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Se vistes meu amigo,

o por que eu sospiro?

       e ai Deus, se verrá cedo?

 

Se vistes meu amado,

o por que hei gram coidado?

       e ai Deus, se verrá cedo?

Tenham umas excelentes férias!

IA

Amanhecer com Cesário… Anoitecer com Ella…

Breve interrupção deste intervalo grande, a que chamamos férias de verão.

Porque já foram “Dez horas da manhã“, mas “os transparentes / Matizam uma casa apalaçada“, ainda… E há “brancuras quentes” que persistem!…

Dito por Maria José Peixoto e Vítor Oliveira, ambos professores, um ainda na nossa ESG e outro quase de partida lá mais para sul. O meu muito obrigada por esta partilha, postada no YouTube há já um ano.

«Num bairro moderno

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
“Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…”

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário – que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.»

O Livro de Cesário Verde

E agora é um quando a noite e o dia se opõem, muito ao gosto romântico, em que as sombras predominam e sufocam a luz.

Continuação de boas férias! (Eu cá continuo com minhas provas de exame…)

IA

Celebrando a Vida

Dois poemas para começar a semana…

A vida é um milagre.

Cada flor

com sua forma, sua cor, seu aroma,

cada flor é um milagre.

Cada pássaro

com sua plumagem, seu canto, seu voo,

cada pássaro é um milagre.

O espaço, infinito,

o espaço é um milagre.

O tempo, infinito,

o tempo é um milagre.

A memória é um milagre.

A consciência é um milagre.

Tudo é um milagre.

 Manuel Bandeira

Continuação de boas férias (eu cá estou entretida com os “meus” exames)!

IA

Camões, grande Camões…

Porque hoje é dia do Poeta, deixo aqui uma das suas esparsas, por sinal bastante atual, e composta em vocabulário simples, como exige a temática, que se quer ver entendida por todos.

A rima é, nesta pequena composição poética, um precioso auxiliar na retenção da informação. Convém, de facto, memorizar bem a sistematicidade deste desconcerto, com o qual somos diariamente confrontados ! 

Hieronymus Bosch, As Tentações de santo Antão (pormenor)

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O eu lírico, a seu modo, tentou a felicidade, imitando “os maus”, cedendo assim às suas tentações, mas a Vida, o Mundo, sempre cruel com ele, surpreendentemente fez justiça…

Apesar de tudo, continuamos a acreditar que é possível o Paraíso!

Um bom dia de Camões (e afins) para todos!

IA 

Do Azul ao Negro…

O poema é de David Mourão-Ferreira, foi interpretado por Amália e, agora, está aqui com outra roupagem.

BARCO NEGRO

De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas…
São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança
areia nos vidros,
na água que canta,
no fogo mortiço,
no calor do leito,
nos bancos vazios,
dentro do meu peito
estás sempre comigo.

Boas viagens!

IA