Ainda Caeiro e uma ficha de compreensão do oral escondida num comentário

Recupero aqui um comentário ao artigo intitulado “Alberto Caeiro – poemas (possíveis) para uma oral feliz”, que continha registo audiovisual e ficha a acompanhar, vindos do blogue Carruagem 23.

O autor, o professor Vítor Oliveira, autorizou que o seu comentário viesse para a “primeira página” do Bem-Vindo ao Paraíso, pelo que abaixo segue o dito cujo.

Muito obrigada, Stor Vítor! 

E nós, meus caros alunos, vamos resolver a atividade.

IA

FICHA DE COMPREENSÃO DO ORAL

GRUPO I ____________________________________________

A
Vai assistir a um registo audiovisual, composto por várias componentes e diferentes tipos de texto.

Selecione a alínea que melhor completa a frase de cada item. Depois, registe todas as opções na folha de prova com o número e a alínea devidos.

1. O documento apresentado obedece à sequência visual
(A) assinatura / fotografia / múltiplas pinturas / capa de livro / vídeo / imagem de fecho
(B) assinatura / pinturas / fotografia / novas pinturas / capa de livro / vídeo / imagem de fecho
(C) capa de livro / pinturas / fotografia / novas pinturas / vídeo / imagem de fecho / assinatura
(D) imagem de abertura / assinatura / pinturas / fotografias / capa de livro / vídeo

2. O assunto do documento é especificamente centrado
(A) na poesia de Pessoa ortónimo.
(B) na heteronímia pessoana.
(C) num discípulo pessoano.
(D) no mestre da heteronímia pessoana.

3. Segundo a voz locutora do documento audiovisual,
(A) o mestre pessoano é um pastor.
(B) há identidade entre o mestre pessoano e os pastores.
(C) o mestre pessoano assume-se no exercício da profissão de um pastor.
(D) há uma comparação da alma do mestre pessoano com a de um pastor.

4. Pelo exposto no documento, para o mestre pessoano, o pensamento é equivalente
(A) a estar doente dos olhos.
(B) a andar à chuva.
(C) ao uso errado dos sentidos.
(D) ao uso dos sentidos.

5. As pinturas reproduzidas no documento
(A) evocam ambientes urbanos de evidente progresso civilizacional.
(B) retratam exclusivamente espaços campestres, de ambiência bucólica.
(C) representam dominantemente espaços relacionados com a natureza.
(D) dão conta de que como Caeiro foi um verdadeiro e natural pastor.

6. A coloquialidade e o verso livre são consequências de um estilo que o mestre pessoano
(A) assume pelo contacto puro e verdadeiro com as coisas.
(B) recusa por causa do olhar lúcido não contaminado pela metafísica.
(C) adota, na negação de que a escrita seja semelhante à fala.
(D) propõe, na sequência do exercício do próprio pensamento.

7. O poema declamado no documento evidencia o recurso aos sentidos
(A) gustativo, olfativo.
(B) auditivo, olfativo.
(C) gustativo, visual.
(D) visual, auditivo.

8. Os termos que melhor caracterizam o mestre pessoano são
(A) recusa do pensamento, contaminação da metafísica, complexidade filosófica.
(B) originalidade, Natureza, sensacionismo e aparente simplicidade.
(C) pureza, coloquialidade, escrita artificial, estilo coordenativo.
(D) mestria, realidade, pastorícia, Natureza e preocupação metafísica.

B
Indique os títulos de obras / poemas do mestre pessoano apresentados no registo escutado / visionado.
i) “Pastor numa pastagem”
ii) “Pastagem de verão”
iii) “Veleiros no mar, noite”
iv) “Guardando o rebanho”
v) “O Guardador de Rebanhos”
vi) “O pastor amoroso”
vii) “Poemas Inconjuntos”
viii) “A ceifa”
ix) “Poemas de Alberto Caeiro”
x) “Se eu pudesse trincar a terra toda e sentir o paladar”

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Ainda Pessoa e o seu “mestre”…

A instrução era a que segue abaixo. Como exemplo de dois trabalhos bem conseguidos, temos os textos A e o B, produzidos por duas alunas do 12.º 10, aquando da realização do teste de avaliação sumativa.

INSTRUÇÃO:

Na carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa afirma “Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.”.

     Partindo da afirmação acima transcrita, redija um texto expositivo, de 130 a 160 palavras, em que dê conta das principais diferenças temáticas e formais entre a obra poética do “mestre” e a de Pessoa .

 

Resposta A

Pessoa afirma que Caeiro é o seu “mestre” e talvez seja porque este último exprime “tudo” o que Pessoa deseja ser/sentir mas não consegue.

Enquanto o ortónimo elabora poemas sobre a dor de pensar, o fingimento artístico, a dicotomia sonho/realidade e a nostalgia da infância (todos eles acabam sempre por exprimir dor/infelicidade do eu lírico ou o desejo de ser instintivo/inconsciente), Caeiro escreve sobre a ordem natural do mundo, a simplicidade da vida rural e a objetividade, valorizando as sensações e negando o pensamento. Assim, neste aspeto, eles são opostos.

Embora ambos recorram a um vocabulário simples, Pessoa emprega metáforas complexas e símbolos, já Caeiro usa uma linguagem coloquial, espontânea, que se assemelha à própria Natureza, que ele tanto valoriza. Dessa forma, a poesia do “mestre” possui irregularidade formal. Já a do ortónimo apresenta regularidade, com estrofes e versos curtos e também musicalidade.

Assim concluímos que Caeiro pode ser interpretado como a pessoa que Pessoa deseja ser na sua poesia. (160 palavras)

Lídia Santos, 12.º 10

Resultado de imagem para os heterónimos de fernando pessoa

imagem colhida em Google Imagens

Resposta B

Pessoa cria Caeiro e elege-o seu “mestre”.

O heterónimo surge quase como uma resposta à dor de pensar do ortónimo Pessoa, que sofre por ser excessivamente consciente e racional, mostrando o seu desejo de ser instintivo. Pelo contrário, o mestre recusa o pensamento e é feliz porque se limita a observar/sentir a Natureza (primado das sensações).

Enquanto Pessoa recorre ao fingimento artístico para melhor expressar sentimentos, Caeiro preconiza a expressão sincera do que sente. Considera que relembrar é atraiçoar a ordem natural das coisas, evitando, por isso, recordar o passado. Contrariamente, o ortónimo refugia-se na infância, para fugir à realidade, vendo esse período como um “paraíso perdido”, época mais próxima da inconsciência.

A linguagem simbólica e metafórica, os jogos de palavras, a musicalidade e a regularidade formal de Pessoa contrastam com o vocabulário e metáforas simples e não livrescos, a narratividade, a linguagem coloquial e a irregularidade formal de Caeiro.

Caeiro é assim considerado o “mestre” de Pessoa e dos restantes heterónimos. (160 palavras)

Mafalda Alvim, 12.º 10

Breve questionário sobre Alberto Caeiro e a sua poesia

Meus caros alunos, está na hora de testar os vossos conhecimentos a propósito deste heterónimo pessoano. A atividade será corrigida em aula.

Bom trabalho!

IA

Assinale cada uma das afirmações como verdadeiras ou falsas, tendo em conta o estudo feito sobre a poesia de Alberto Caeiro.

  1. Caeiro é o heterónimo pessoano mais instruído. ___
  2. Alberto Caeiro é o poeta da Natureza. ___
  3. Este heterónimo tem tendências neopagãs. ___
  4. Caeiro é considerado o mestre só dos heterónimos. ___
  5. Caeiro apresenta-se como um mero guardador de rebanhos, ou seja, de sensações, que vê de forma objetiva e natural a realidade circundante. ___
  6. A Natureza, para Caeiro, está em constante renovação. ___
  7. Caeiro utiliza uma linguagem simples, coloquial, visível no vocabulário erudito e nas construções frásicas complexas. ___
  8. Caeiro é sensacionista porque privilegia aquilo que capta pelas sensações. ___
  9. A realidade é captada pelo recurso à sensação visual, a única que interessa a Caeiro. ___
  10. O verdadeiro sensacionismo resulta da supremacia das sensações oferecidas pelos órgãos sensoriais. ___
  11. Caeiro vive no presente, recusando o passado e o futuro, recorrendo também por isso, a nível estilístico, a aforismos, ao presente do indicativo e ao imperativo. ___
  12. Caeiro rejeita o pensamento e vive pelas sensações. ___
  13. “Pensar incomoda como andar à chuva” significa que o pensamento gera mal-estar, infelicidade. ___
  14. Caeiro aceita calmamente a morte pois perspetiva-a como um acontecimento natural. ___
  15. Caeiro foi o mestre do ortónimo e dos outros heterónimos. ___
  16. Os versos “Eu não tenho filosofia, tenho sentidos” e “Pensar é não compreender” confirmam o primado dos sentidos e o seu caráter antimetafísico. ___
  17. A apologia da simplicidade da vida rural é uma atitude valorizada por este poeta bucólico. ___
  18. O autor de “O guardador de rebanhos” é um autodidata, que adota uma vivência simples e concreta. ___
  19. O uso do pensamento traz felicidade a este heterónimo. ___
elaborado a partir de SENTIDOS 12, "Questões de aula", ASA Editores

 

Alberto Caeiro – poemas (possíveis) para uma oral feliz

Uma breve e excelente análise deste heterónimo pessoano pelo olhar sensível de um jovem brasileiro…

II

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás… 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem… 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras… 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo… 
Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo.  Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender… 
O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos)                    
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… 
    
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe porque ama, nem o que é amar … 
    
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar…

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
A vermelho no poema destaca-se a passagem lida no vídeo clip.

Retomo, agora, um clip que já mora neste nosso Bem-Vindo ao Paraíso, há algum tempo.

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

In Poemas inconjuntos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

 E deixo mais estes poemas.

Tenham um bom domingo!

IA

«Olá, guardador de rebanhos, 
Aí à beira da estrada, 
Que te diz o vento que passa?»

«Que é vento, e que passa, 
E que já passou antes, 
E que passará depois. 
E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.   
Fala-me de muitas outras cousas.   
De memórias e de saudades  
E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento. 
O vento só fala do vento. 
O que lhe ouviste foi mentira, 
E a mentira está em ti.»

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

III 

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

In O Guardador de Rebanhos 
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

XL

Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor.

 

In O Guardador de Rebanhos
 In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

 

Paul Gauguin, Haere Mai, 1891. Oil on burlap, 28 1/2 x 36 inches (72.4 x 91.4 cm)
Paul Gauguin, Haere Mai, 1891.

XLI 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa… 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão… 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos…

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir
(Enquanto os olhos e ouvidos se não fecham) …

 

In O Guardador de Rebanhos In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 200

De longe vejo passar no rio um navio…
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimo desolação com isto…
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença de metafísica
Rio abaixo até à realidade do mar.

In Poemas Inconjuntos  
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

Uma outra Páscoa

Como a poderia dizer Caeiro, que a disse sem lhe chamar Páscoa. Porque Páscoa é (também) passagem.

E porque, como diz o poeta, as coisas são o que são e ponto final. E, depois delas, outras coisas são.

“Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta
o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta e a flor
É apenas flor.”

                                            in O Guardador de RebanhosPoema XL

 

“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva …

O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …” 

                                           in O Guardador de Rebanhos – Poema XXI

 

“Passou a diligência pela estrada, e foi-se; 
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia. 
Assim é a ação humana pelo mundo fora. 
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos; 
E o sol é sempre pontual todos os dias.”

                                           in O Guardador de Rebanhos – Poema XLII 

Uma Santa Páscoa!

IA