Antero de Quental, (n)os sonetos

Eis aqui esboçadas as principais linhas de leitura dos sonetos anterianos estudados, organizadas de acordo com os tópicos de conteúdo estipulados no Programa de Português do Ensino Secundário.

1. angústia existencial  (disforia): 

– pessimismo;
– realidade traumatizante dominada pelo sofrimento e pela injustiça;
– conflito razão/sentimento;
– inquietação espiritual;
– consciência da imperfeição humana…

2. configurações do Ideal – perfeição e plenitude das realizações imaginárias ou reais (euforia):

– busca de um sentido para a Vida;
– ânsia do Absoluto;
– busca do Ideal, do Bem, da Felicidade;
– preocupação com o Bem, a Verdade, a Justiça…

3. Linguagem, estilo e estrutura:

‒ o discurso conceptual;
‒ o soneto;
‒ recursos expressivos: a apóstrofe, a metáfora, a personificação.  

Concluindo:

Há nos sonetos de Antero uma certa para-teatralidade, suportada também pela presença de um “tu” (“E tu entendes o meu mal sem nome, / A febre de Ideal, que me consome, /Tu só, Génio da noite, e mais ninguém!), com o qual é possível um diálogo constante, nem que esse “tu” seja um mero desdobramento do “eu” (“Dorme o teu sono, coração liberto”).

A busca do Ideal assume-se como demanda essencial de um “eu lírico”, que se enuncia num plano poético encarado como real (Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração) ou imaginário (Sonho que sou um cavaleiro andante.), e que sucumbe, solitário, perante uma realidade prepotente, opressora, esmagadora, da qual não consegue libertar-se (“Mas dentro encontro só, cheio de dor, / Silêncio e escuridão – e nada mais!; “Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita.).

Compreende-se assim que a morte (“Dorme na mão de Deus eternamente!), o sonho (Sonho-me às vezes rei, n’alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente  /E a lua cheia sobre as águas brilha…) e o estoicismo (Para além do Universo luminoso (…) A onda desse mar tumultuoso / Vem ali expirar, esmaecida…), sejam perspetivados como as únicas alternativas possíveis de fuga a essa realidade angustiante.

Bom trabalho!

IA

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Antero de Quental – Sonetos

 O PALÁCIO DA VENTURA

Carlos Pereira da Silva

Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,

Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da noite, e mais ninguém!

Boas leituras!

IA

Antero de Quental… a Só(s) num trio

Edvard Munch, Melancolia

A Alberto Teles

 Só! – Ao ermita sozinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céu tenha. . .

Só! – Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança;
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que à noite soluça em erma penha. . .

Só! – Não o é quem na dor, quem nos cansaços,
Tem um laço que o prenda a este fadário,
Uma crença, um desejo. . . e inda um cuidado. . .

Mas cruzar, com desdém, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitário,
Isto é ser só, é ser abandonado!

Antero de Quental, in Sonetos Completos. Ulisseia

E para acompanhar Antero e Munch nesta (não) solidão, fica também Heitor Villa-Lobos.

Tenham um ótimo fim de semana!

IA