Um intervalo que evoca um certo menino de Pessoa

O primeiro poema é de Arthur Rimbaud, poeta francês, pós-romântico e percursor do surrealismo. Nasceu a 20 de outubro de 1854. Seria hoje o seu aniversário. Morreu cedo, com 37 anos, mas deixou obra (tão bem) feita que influenciou a geração literária que lhe sucedeu.

Arthur Rimbaud

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata 
Como se delirasse, e o sol da montanha 
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis, 
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua, 
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente. 
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio 
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito, 
Tem dois furos vermelhos do lado direito. 

 
Tradução de Ferreira Gullar

Le dormeur du val

C’est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

O segundo poema é de Pessoa.

 

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Antologia Poética

Bons poemas!

IA

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