Camões, grande Camões…

Porque hoje é também dia dele… O da partida, porque o da chegada desconhecemos…

Fiquemos então com este requiem de um compositor português setecentista, que assim homenageia Camões, e dois poemas: o primeiro, de Bocage; o segundo, de Torga. A ordem é meramente cronológica.

IA

“Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo
Arrostar co´o sacrílego gigante;
 
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
também carpindo estou, saudoso amante.
 
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
 
Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.”
 
 
Bocage, Rimas

 

 
 

“Nem tenho versos, cedro desmedido
da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
que fico a olhar de longe tal grandeza.


Quem te pode cantar, depois do Canto
que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
chega aos teus pés e como que arrefece.


Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
foste louco a cantar e louco a combater.


Sirva, pois, de poema este respeito
que te devo e confesso,
única nau do sonho insatisfeito
que não teve regresso!”

Miguel Torga, Poemas Ibéricos

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O dia a folhear

Hoje, comemora-se o Dia Mundial do Livro, data emblemática no cenário da literatura mundial, pois foi a 23 de abril de 1616 que partiu Miguel de Cervantes e a 23 de abril de 1899 que chegou Vladimir Nabokov. O dia 23 de abril é celebrado também como o dia de nascimento (em 1564) e morte (em 1616) de William Shakespeare. 

Fica soneto do poeta e dramaturgo inglês, traduzido pelo nosso bem português Carlos de Oliveira. E fica, depois, soneto do nosso grande Camões. Bem atual, diga-se!

Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
    Porque o mundo, que vê e que respira,
    te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in “Sonetos”
(Tradução de Carlos de Oliveira)

CXCV

Correm turvas as águas deste rio,
Que as rápidas enchentes enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou como o Verão, o ardente estio,
Umas coisas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais do que parece.

LUIZ VAZ DE CAMÕES
In Obras de Luíz de Camões (Vol. II), 1861
Pelo Visconde de Juromenha

Boas leituras neste Dia do Livro!

IA

imagens colhidas em Google - Imagens

1.º Aniversário

Hoje, o Bem-Vindo ao Paraíso celebra o seu primeiro aniversário. Por isso, ficam o poema de Álvaro de Campos, o de Luís de Camões e a canção de Mercedes Sosa.

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… 
A que distância!… 
(Nem o acho… ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes… 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos … 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim… 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui… 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! …

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos, in “Poemas”

 E porque, com o correr do tempo, tudo muda, de facto!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos” 

  

IA

Camões, grande Camões…

Porque hoje é dia do Poeta, deixo aqui uma das suas esparsas, por sinal bastante atual, e composta em vocabulário simples, como exige a temática, que se quer ver entendida por todos.

A rima é, nesta pequena composição poética, um precioso auxiliar na retenção da informação. Convém, de facto, memorizar bem a sistematicidade deste desconcerto, com o qual somos diariamente confrontados ! 

Hieronymus Bosch, As Tentações de santo Antão (pormenor)

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O eu lírico, a seu modo, tentou a felicidade, imitando “os maus”, cedendo assim às suas tentações, mas a Vida, o Mundo, sempre cruel com ele, surpreendentemente fez justiça…

Apesar de tudo, continuamos a acreditar que é possível o Paraíso!

Um bom dia de Camões (e afins) para todos!

IA