INÊS – Mais do que um intervalo!

A propósito da tradição literária (continuidade ou transgressão) surgem dois poemas: um a estudar na aula, da autoria de Ana Luísa Amaral; outro, de Miguel Torga. O dela entra em rutura com essa tradição, questiona a longevidade/eternidade do amor ou a visão idealizada ou idealizante do mesmo; o dele continua o que Fernão Lopes antecipou e que Camões e António Ferreira esculpiram em género lírico e dramático, respetivamente, abrindo caminho a poetas posteriores, nomeadamente Bocage. 

Mas comecemos com música, em jeito de banda sonora. Em Inglês, porque o amor não escolhe língua. Comeemos com “The Story”, em que se afirma obstinadamente “I was made for you!”. Poderia ter sido Inês a dizê-lo. Ou o seu amado Pedro.

 

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS 

É tarde. Inês é velha. 
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar 
e passa o dia todo em solene toada: 
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro! 
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar 
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

Ana Luísa Amaral

Antes do fim do mundo, despertar

Antes do fim do mundo, despertar,
Sem D. Pedro sentir,
E dizer às donzelas que o luar
E o aceno do amado que há-de vir…

E mostrar-lhes que o amor contrariado
Triunfa até da própria sepultura:
O amante, mais terno e apaixonado,
Ergue a noiva caída à sua altura.

E pedir-lhes, depois fidelidade humana
Ao mito do poeta, à linda Inês…
À eterna Julieta castelhana
Do Romeu português.

Miguel Torga

 

E agora Bocage:

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores;

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.

 

«Mísero esposo,

Desata o pranto,

Que o teu encanto

Já não é teu.

 

«Sua alma pura

Nos Céus se encerra;

Triste da Terra,

Porque a perdeu.

 

«Contra a cruenta

Raiva íerina,

Face divina

Não lhe valeu.

 

«Tem roto o seio

Tesoiro oculto,

Bárbaro insulto

Se lhe atreveu.

 

«De dor e espanto

No carro de oiro

O Númen loiro

Desfaleceu.

 

«Aves sinistras

Aqui piaram

Lobos uivaram,

O chão tremeu.

 

«Toldam-se os ares,

Murcham-se as flores:

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.»

Tenham um bom fim de semana!

IA

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Camões, grande Camões…

Porque hoje é também dia dele… O da partida, porque o da chegada desconhecemos…

Fiquemos então com este requiem de um compositor português setecentista, que assim homenageia Camões, e dois poemas: o primeiro, de Bocage; o segundo, de Torga. A ordem é meramente cronológica.

IA

“Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo
Arrostar co´o sacrílego gigante;
 
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
também carpindo estou, saudoso amante.
 
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
 
Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.”
 
 
Bocage, Rimas

 

 
 

“Nem tenho versos, cedro desmedido
da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
que fico a olhar de longe tal grandeza.


Quem te pode cantar, depois do Canto
que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
chega aos teus pés e como que arrefece.


Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
foste louco a cantar e louco a combater.


Sirva, pois, de poema este respeito
que te devo e confesso,
única nau do sonho insatisfeito
que não teve regresso!”

Miguel Torga, Poemas Ibéricos

2015 – 2016!

Sísifo

Recomeça....
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E  vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
 
                                    Miguel Torga, Diário XIII

Um poema eterno, porque nele vive a essência do ser humano, com a sua deambulação permanente em busca de si, dos sonhos (mesmo os ilusórios) e do sentido da Vida.

Dou assim início ao ano letivo, não sem antes recordar um tema musical que ilustra o poema torguiano, pelos obstáculos que devemos permanentemente ultrapassar, mas cuja mensagem é claramente otimista. Faz parte da banda sonora de um filme também eterno: em português, Música no Coração; em Inglês, The sound of Music.

Estimo a todos um excelente ano de aprendizagens e partilhas e recolho-me ao trabalho de arranque das atividades letivas, enquanto aguardo o primeiro artigo redigido pelos alunos do 11º 9 da ESG, a turma que este ano  será e fará este Paraíso. Será uma breve apresentação.

IA