O Ano da Morte de Ricardo Reis – tópicos essenciais

Abaixo segue documento-síntese, parte integrante do projeto a que o nosso manual de Português pertence.

Boas aprendizagens!

IA

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Fomos ao teatro: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”

Fomos, (ou)vimos e viemos… Tudo muito bem!

Mas…

Um intervalinho dava jeito. Um momento para aferir e refletir… Porque reflexões ali não faltam… Os diálogos entre Pessoa e Reis são disso bom exemplo.

Foto de ETCetera Teatro.
imagem colhida em https://www.facebook.com/EtceteraTeatro

Agora vamos (mesmo os que já foram) à obra e façamos as comparações (possíveis).

Para já fica aqui um excerto do primeiro capítulo do romance saramaguiano, em que surge o livro que Reis nunca abandonou, como pudemos confirmar ao longo da dramatização, e que finda com uma interrogação, bem ao gosto do autor: Quem?

Quem? Afinal, quem somos nós? Quem sou eu, Pessoa? Quem sou eu, Reis? Interrogações deste tipo que são constantes nos diálogos entre o criador (já morto) e o heterónimo (ainda vivo).

Boas leituras!

IA

"Deixou a janela aberta, foi abrir a outra, e, em mangas de camisa, refrescado, com um vigor súbito, começou a abrir as malas, em menos de meia hora as despejou, passou o conteúdo delas para os móveis, para os gavetões da cómoda, os sapatos na gaveta-sapateira, os fatos nos cabides do guarda-roupa, a mala preta de médico num fundo escuro de armário, e os livros numa prateleira, estes poucos que trouxera consigo, alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular, uns manuseados poetas ingleses, três ou quatro autores brasileiros, de portugueses não chegava a uma dezena, e no meio deles encontrava agora um que pertencia à biblioteca do Highland Brigade, esquecera-se de o entregar antes do desembarque. A estas horas, se o bibliotecário irlandês deu pela falta, grossas e gravosas acusações hão de ter sido feitas à lusitana pátria, terra de escravos e ladrões, como disse Byron e dirá O'Brien, destas mínimas causas, locais, é que costumam gerar-se grandes e mundiais efeitos, mas eu estou inocente, juro-o, foi deslembrança, só, e nada mais. Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem."

in http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/4034626.pdf