Ricardo Reis em canção

Depois da brilhante apresentação oral da Lídia (mas não é a do Reis!) e da Mafalda, do 12.º 10, temos o Diogo Piçarra, com o mesmo poema, uma ode da autoria do heterónimo pessoano mais erudito, poeta clássico e neopagão, o Sr. Dr. Ricardo Reis!

Pela rima, nem parece poema dele, pois não?…

Sim, sei bem

 

Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

    Deixem-me me crer

O que nunca poderei ser.

8-7-1931 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  - 133.
Anúncios

Variações da mesma ode e mais odes

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando [1]

 

Cuidas tu, louco Flaco, que apertando

Os teus estéreis, trabalhosos dias

        Em feixes de hirta lenha,

        Cumpres a tua vida?

A tua lenha é só peso que levas

Para onde não tens fogo que aquecer-te,

        Nem levam peso ao colo

        As sombras que seremos.

Aprende calma com o céu havido

E com o pranto a ter contínuo curso.

        Não sigas a clepsidra

        Que conta a hora dos outros.

Flaco Resultado de imagem para horácio Flaco

É o apelido de Horácio, Horácio Quinto Flaco. Filósofo e poeta lírico e satírico romano. É uma das mais conhecidas e ilustres figuras da Roma Antiga. Ricardo Reis diz ser seu discípulo. 

 

11-7-1914, Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  – 184.

Clepsidra Resultado de imagem para clepsidra

Também denominada relógio de água, foi um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo. Trata-se de um dispositivo movido a água.

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]
                                In Flaccum

 

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
        Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres 
Põe mais vista em notares que tens flores
        No teu jardim (…)

s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994. – 46a.

Ceres

Resultado de imagem para deusa Ceres

Ceres equivale, na mitologia romana, à deusa grega, Deméter. Era a deusa das plantas que brotam (particularmente dos grãos) e do amor maternal. Diz-se que foi adotada pelos romanos em 496 a.C. durante uma fome devastadora, quando os livros Sibilinos avisaram para que se adotasse a deusa grega Deméter.

Era celebrada por mulheres em rituais secretos no festival de Ambarvália, em Maio. Existia um templo dedicado a esta deusa no monte Aventino em Roma. A veneração de Ceres ficou associada às classes plebeias, que dominavam o comércio de cereais. Sabe-se muito pouco sobre os rituais que lhe eram dedicados. No entanto, um dos poucos costumes que ficou registado consistia em apertar ligas nas caudas das raposas, que eram largadas no Circo Máximo.

Antes de nós nos mesmos arvoredos

 

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inultilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

8-10-1914 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 52.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Em qualquer hora pode suceder-nos       

         O que nos tudo mude.

Fora do conhecido e estranho o passo

Que próprio damos. Graves numes guardam

        As lindas do que é uso.

Não somos deuses; cegos, receemos,

E a parca dada vida anteponhamos

        À novidade, abismo.

s.d. 
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 159. 1ª publ. in Atena, nº 1. Lisboa: Out. 1924.

A palidez do dia é levemente dourada.

A palidez do dia é levemente dourada.

O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas

                Dos troncos de ramos secos.

                O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiquíssima da minha

Crença, consolado só por pensar nos deuses,

                Aqueço-me trémulo

                A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole

0 que alumiava os passos lentos e graves

                De Aristóteles falando.

                Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre

Tendo para os deuses uma atitude também de deus,

                Sereno e vendo a vida

                À distância a que está.

19-6-1914 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).   - 28.

Parténon

Resultado de imagem para Parténon

O Parténon, templo dedicado à deusa grega Atena, é o mais conhecido dos edifícios remanescentes da Grécia Antiga e foi ornado com o melhor da arquitetura grega. As suas esculturas decorativas são consideradas um dos pontos altos da arte grega.

 Acrópole de Atenas 

É a mais conhecida e famosa Resultado de imagem para acrópole de atenas acrópole do mundo. Embora existam muitas outras acrópoles na Grécia, o significado da Acrópole de Atenas é tal que é vulgarmente conhecida como “A Acrópole”. É uma colina rochosa de topo plano que se ergue 150 metros acima do nível do mar, em Atenas, capital da Grécia, e abriga algumas das mais famosas edificações do mundo antigo, como o Parténon.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

E deseja o destino que deseja;

                Nem cumpre o que deseja,

                Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe, e ali ficamos;

                Que a Sorte nos fez postos

                Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

Do que nos coube que de que nos coube.

                Cumpramos o que somos.

                Nada mais nos é dado.

29-7-1923 
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).  - 171.
 

 

Carpe Diem

No Clube dos Poetas Mortos

 

Saudades deste filme de Peter Weir, de 1990!

Ricardo Reis, o heterónimo mais erudito de Pessoa, só não aprovaria o conselho “Façam das vossas vidas uma coisa extraordinária!”.

Afinal, o “eu” nas odes de Reis é um simples observador do rio que caminha para o mar, um mero espectador da vida que passa. Nunca é ator. Nunca se assume como alguém que busca protagonismo. Mas é sempre aquele que aceita o que o Fatum lhe reserva.

E que cada um de nós encontre o seu verso, como sugere Walt Whitman, de quem falaremos quando estudarmos a poesia do sr. engenheiro Álvaro de Campos.

Boa semana!

IA

Ricardo Reis, o poeta “clássico” e neopagão

Eis aqui algumas características da poesia de Ricardo Reis, pelo olhar atento de dois críticos literários.

«Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Tentaremos sintetizá-la.

Cada qual de nós — opina o Poeta — deve viver a sua própria vida, isolando-se dos outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e lhe apraz. Não deve procurar os prazeres violentos, e não deve fugir às sensações dolorosas que não sejam extremas.

Buscando o mínimo de dor […], o homem deve procurar sobretudo a calma, a tranquilidade, abstendo-se do esforço e da actividade útil.

[…]

Devemos buscar dar-nos a ilusão da calma, da liberdade e da felicidade, coisas inatingíveis porque, quanto à liberdade, os próprios deuses — sobre quem pesa o Fado — a não têm; quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado da sua fé e do meio onde a sua alma devia viver; e quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis, profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer.

Tudo isto se apoia num fenómeno psicológico interessante: numa crença real [?] e verdadeira nos deuses da Grécia antiga, admitindo Cristo […] como um deus a mais, mas mais nada — ideia esta de acordo com o paganismo e talvez em parte inspirada pela ideia (puramente pagã) de Alberto Caeiro de que o Menino Jesus era «o deus que faltava.»

1915? 
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.  - 386.

 

«Os temas da sua poesia são aqueles (ou mais propriamente alguns daqueles) que habitualmente encontramos no lirismo clássico, nomeadamente o carpe diem, a aurea mediocritas ou a tirania do fatum. Doutrinariamente, apresenta-se ainda com um “pagão da decadência“, que procura conciliar o culto epicurista do prazer com a renúncia estoica, tendo consciência de que a renúncia aos bens materiais, o sábio usufruto dos pequenos prazeres e a aceitação da morte como fim natural da existência são o caminho certo para fugir à infelicidade»

António Apolinário Lourenço, Fernando Pessoa, Coimbra, Edições 70, 2009, pp. 57-58 (com supressões)

Eis, agora, alguns conceitos fundamentais para melhor perceber o heterónimo pessoano mais erudito.

Epicurismo –  é o sistema filosófico (criado por Epicuro), que defende a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo (busca da felicidade relativa), o que implica:

–   a moderação nos prazeres;

–  a fuga à dor;

– estados de ataraxia (tranquilidade capaz de evitar a perturbação);

–  a ausência da paixão.

 

Carpe Diem  – é uma frase de um poema de Horácio que pode ser traduzida por “Aproveite (ou Colha) o dia!”.  É  um caminho possível da felicidade, considerada o prazer (moderado) do momento, alcançável pela

–  indiferença à perturbação;

–  não cedência aos impulsos dos instintos;

–  procura da calma ou, pelo menos, pela criação da sua ilusão.

Atitude estoica – considera ser possível encontrar a felicidade, desde que se viva em conformidade com as leis do destino (Fatum) que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. Destacam-se assim os seguintes aspetos:

–  aceitação das leis do destino;

–  indiferença face às paixões e à dor;

–  autodisciplina.

Boas leituras!

IA