O dia a folhear

Hoje, comemora-se o Dia Mundial do Livro, data emblemática no cenário da literatura mundial, pois foi a 23 de abril de 1616 que partiu Miguel de Cervantes e a 23 de abril de 1899 que chegou Vladimir Nabokov. O dia 23 de abril é celebrado também como o dia de nascimento (em 1564) e morte (em 1616) de William Shakespeare. 

Fica soneto do poeta e dramaturgo inglês, traduzido pelo nosso bem português Carlos de Oliveira. E fica, depois, soneto do nosso grande Camões. Bem atual, diga-se!

Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
    Porque o mundo, que vê e que respira,
    te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in “Sonetos”
(Tradução de Carlos de Oliveira)

CXCV

Correm turvas as águas deste rio,
Que as rápidas enchentes enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou como o Verão, o ardente estio,
Umas coisas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais do que parece.

LUIZ VAZ DE CAMÕES
In Obras de Luíz de Camões (Vol. II), 1861
Pelo Visconde de Juromenha

Boas leituras neste Dia do Livro!

IA

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